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Archive for August, 2009

A sensação de aconchego, o sentir-se confortável em um lugar, sobretudo um lugar indoor, a despeito do possível isolacionismo que a prática pode alimentar caso se torne habitual, é uma das que mais me agradam nesta vida. Nos momentos em que me encontro sozinho dentro de minha casa, de preferência à noite ou em dias de céu nublado, nos quais se torna indispensável o acender de uma luz em pleno meio dia para que se enxergue alguma coisa, é como se eu houvesse atingido algum tipo de plenitude suave e tranqüila, como naqueles momentos em que se está a caminhar por uma estrada de terra sob a luz de um Sol intenso e, de repente, eis que surge a sombra de uma árvore, embaixo da qual sentar-se torna-se um ato quase obrigatório. A vontade que nos vem em momentos assim é a de prolongá-los indefinidamente, de modo a esticar a duração de nossa felicidade e de nossa satisfação, o que supostamente nos eximirá de ter que desejar qualquer outra coisa da vida senão aquela serenidade mesma que acabamos de atingir e que observamos no ambiente à nossa volta. Acontece que essa serenidade, aparentemente eterna e inquebrantável, transforma-se automaticamente numa impossibilidade, às menores perturbações que ocorram e que a transformem, sucessivamente, em serenidade parcial e, depois, em agitação, ou mesmo apenas ausência de tranqüilidade – visto que a ausência de tranqüilidade e a agitação não são, de maneira alguma, a mesma coisa. Quando ocorre a quebra da sensação de aconchego, esse fenômeno, muita vez, não parece ser causado por nada que poderíamos ter evitado; e, ainda assim, lamentamos e até nos sentimos culpados por não ter conseguido evitá-lo, ou culpamos outra pessoa e sentimos raiva dela por ter-nos desse modo perturbado a nossa paz.

Assim é que, no desenrolar dos dias de nossa vida, momentos assim vão-se sucedendo um ao outro aos borbotões e, de cada vez que ocorrem, primeiro ficamos felizes – devido à tranqüilidade que experimentamos e que nos parece pôr em contato com uma parte de nós que não costumamos enxergar normalmente – e depois nos entristecemos, e até nos angustiamos, por não poder prolongar sua duração por mais que alguns minutos ou, se formos afortunados, algumas horas – até dias, se tivermos uma sorte que poucos têm! O curioso é que, à medida que vamos envelhecendo, nossa necessidade desses momentos, salvo se formos acometidos daquelas doenças do espírito que transformam nas pessoas aquilo que nelas deveria ser natural, e que as torna, por exemplo, ávidas de ação na velhice ou sedentas de tranqüilidade na infância, aumenta a cada dia que passa; até que, naturalmente, definhamos e morremos, geralmente quase desejando que isso aconteça, como um certo estudioso alemão traduziu acertadamente através de um conceito chamado “desejo de morte”, ou algo assim.

[Este pequeno texto, escrevi-o como parte de uma série de exercícios de imitação de estilos literários que realizarei por recomendação do professor Olavo de Carvalho, no Curso Online de Filosofia. Aqui, procuro imitar especificamente o estilo de Marcel Proust. As observações que faço, entretanto, são a partir de experiências e sensações minhas mesmo. São, portanto, reflexões sinceras, embora o estilo seja mimetizado. Isso, aliás, está me ensinando muito. Estou começando a perceber que determinados estilos literários são mais propícios para descrever certas experiências, e que escrever seguindo um certo estilo até nos estimula a explorar mais a fundo certas sensações que registramos na memória, mas que estavam, por assim dizer, perdidas ou em estado latente, esperando para serem resgatadas e transmitidas a outras pessoas.]

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