Tudo

Escute em volume alto e de olhos fechados. Ouça cada nota. Preste atenção em tudo, nas vozes simultâneas, tudo.

Depois ouça de novo e pense em tudo que puder. E desespere-se ao perceber que a música – uma balada! – não terminou em um aceno de paz.

 

Não voltar

Voltei de viagem mas não me deu ganas de desfazer a mala. Deu-me um desejo de não voltar, como se o passado me prendesse em sua alegria antiga e recente, fria e amorável, inóspita e atraente. As roupas estão-se amassando e em breve hão de virar símbolos mais que utilidades – símbolos dos dias felizes da viagem, de toda viagem. Há viagem triste? Viagens tristes transformam-se em alegrias quando caem na lembrança, como um filme enfadonho com que muito se aprendeu.

Sigo a vida e penso: não será esta o conjunto dos intervalos entre as viagens? Aprendemos mais com o que fazemos sempre ou com o de vez em quando? Leio, ouço música, estudo. Nas viagens não faço nada disso. Nas viagens apenas nos quedamos à toa ou indo de um lado a outro como perdidos e desocupados, mas perdidos e desocupados que se ocupam de viajar, de ver gentes, de ouvir lugares, de falar, falar, falar. Não gosto de falar, mas em viagens falo muito, sou ativo, mais que na volta. E não é assim com todo mundo? Quem nunca voltou de uma viagem e teve aquela sensação de vazio, de tédio, inércia e silêncio. A viagem é tagarela. O cotidiano move-se de inércia. A vida de segunda a domingo. Arte talvez seja não deixar que isso aconteça.

Arte talvez seja fazer da vida uma viagem, sem tagarelar mas sem calar-se.

 

As pessoas

Cito um post do Twitter:

“@Literatuitando: “Às vezes as pessoas são bonitas, não pela aparência física, nem pelo que dizem, só pelo que são.” (Markus Zusak)”

As pessoas são bonitas simplesmente por serem obra de Deus. Acho que isso tem a ver com o mandamento de amar o próximo como a si mesmo. Quantas vezes gostamos de alguém, mesmo sem concordar com nada que esse alguém diz ou faz.

O ser gosta do ser.

Hotéis evangélicos?

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Fico sempre um pouco feliz e um pouco assustado com a presença infalível de um exemplar do Novo Testamento em um quarto de hotel. Posso afirmar com certeza que não me lembro da última vez em que fiquei hospedado num hotel onde não houvesse um desses em meus aposentos temporários.

Fico feliz porque a palavra de Deus ainda está presente neste mundo ateu, ainda que escondida dentro de uma gaveta. Por outro lado, assusta-me um pouco a ideia de que essa palavra só venha propagada por evangélicos, sob a forma da palavra de Jesus, Jesus, sempre Jesus.

Além disso, acho muito esquisito que isso ocorra em redes internacionais, como Accor e Meliá. Os administradores brasileiros desses hotéis claramente fazem uma “travessura” ao colocarem esses exemplares do Novo Testamento nos quartos, já que o fenômeno evangélico é fortemente brasileiro e é improvável que a matriz dessas redes adote como política a distribuição desses exemplares.

Curiosidade: em pousadas às vezes não encontramos o tal livro. Numa pousada bicho-grilo onde eu fiquei no interior do Rio Grande do Sul não havia nem vestígio da dita publicação. O que havia sim era um monte de mandalas e um cartaz, na entrada do lugar, anunciando uma palestra de um índio brasileiro sobre a “construção do consenso”, eufemismo para “respeito as diferenças, desde que todo mundo seja igual”.

Um itinerário musical

 

Acho que vou dizer uma coisa meio óbvia, mas vamos lá: a música desperta estados de espírito, sentimentos, emoções no ouvinte. A principal diferença entre a música clássica e a popular é que a primeira, além de despertar estados emocionais, também assemelha-se (pelo menos na maioria das vezes) a um discurso com início, meio e fim – como que uma literatura de sons.

Quando ouço música clássica, quase sempre faço questão de dedicar toda a minha atenção ao que estou ouvindo. Não faço outras coisas enquanto ouço, por exemplo, uma sonata ou uma sinfonia. Se eu já tiver ouvido a música muitas vezes, posso até me dar ao luxo de usá-la como background para outras tarefas, do contrário acho uma verdadeira injustiça com a música não dedicar toda a minha atenção a ela; um desperdício mesmo. Mas, enfim, cada um sabe de si.

Voltando porém ao assunto, tem a coisa dos estados de ânimo. E é uma coisa séria. Às vezes fico meio triste, mentalmente confuso, nostálgico ou melancólico quando escuto uma determinada música. Às vezes tudo isso junto! Quando isso acontece, muitas vezes mergulho naquele sentimento até quase não conseguir voltar. Outras vezes adoto uma “estratégia” diferente: vou mudando de compositor, desde um cuja música é triste ou emocionalmente desestabilizadora até chegar em um cuja música seja mais racional e equilibrada. Outro dia, por exemplo, fiz assim. Comecei com um noturno de Chopin:

 

 

Fiquei bem mal (não se preocupem, já me recuperei!). Então passei a uma peça para piano de Mendelssohn, também romântica, porém mais equilibrada (Mendelssohn, segundo se diz, é o mais “clássico” ou “classicista” dos românticos):

 

 

Depois disso eu já estava mais, digamos, centrado. Mas ainda sobrava um quê de melancolia em meu coração, um sentimento de perda ou desamparo advindo dessa incursão pelo universo romântico, tão belo, mas tão fragilizador – e um tanto desiludido (no mau sentido da palavra). Então passei a esta sonata para piano de Haydn.

Foi reconfortante voltar para os braços da ordem e do equilíbrio depois de mergulhar na tormenta dos sentimentos humanos.

Não quero ser moralista, embora ache que já fui, mas quero dizer que o belo se manifesta de várias formas, algumas perigosas. Um ser humano maduro e dono de si deve saber dosar a fruição dos diferentes belos, do contrário arrisca-se a perder o controle de suas emoções. É bom perder o controle, mas também é bom “voltar”. Esta é uma lição que aprendi sobretudo com a música.