Uma experiência musical

Como já disse anteriormente, um dos aspectos mais interessantes da música clássica é a pluralidade de interpretações de uma mesma peça de música – a qual pode ser tocada por músicos diferentes, instrumentos diferentes ou ambas as “coisas”. Para mim, a maior fonte de fascínio, quando se trata de música barroca, está nas interpretações de uma mesma música com instrumentos diferentes. Considero um verdadeiro aprendizado ouvir a mesma peça tocada por instrumentos às vezes totalmente diversos, como o cravo e a flauta doce (que é o caso da música que pretendo mostrar neste post). Você aprende a ouvir aspectos diferentes da música quando a escuta em várias versões. Você conhece a música mais completamente, como se estivesse conhecendo uma pessoa.

Isso aconteceu comigo quando conheci a partita para alaúde BWV 997 de J. S. Bach. Eu achava que meu primeiro contato com a peça havia sido por intermédio de minha professora de flauta doce, que me deu um CD do qual ela participa e que trás a composição sob a forma de uma suíte para flauta doce, cravo e viola da gamba. Mas na verdade o primeiro contato foi através deste CD, em que o músico toca a composição em sua “versão” supostamente original, ou seja, no alaúde (eu disse “supostamente” porque hoje se questiona se a peça realmente foi composta para este instrumento). Curiosamente, como o alaúde não é um instrumento nem de longe tão melódico quanto a flauta doce, a partita não me marcou quando eu ouvi este CD e sua existência me passou despercebida, por assim dizer. Quando a ouvi no CD de minha professora (aliás é ela mesma quem toca a flauta doce; seu nome é Sueli Helena de Miranda) apaixonei-me pela música.

Ouça aqui esta linda peça e, quem sabe, apaixone-se também!

Depois de ouvir a interpretação acima dezenas de vezes, pesquisei mais a fundo e descobri que na verdade não era uma suíte, mas sim uma partita para alaúde (um instrumento cuja sonoridade, diga-se de passagem, faz a do violão parecer brincadeirinha de criança). Fui atrás da tal versão e descobri, para minha surpresa, que tinha o CD e já a havia escutado (como disse acima). Mas não vou reproduzi-la ainda, porque tenho algo mais interessante para dizer.

Pois bem, pesquisando mais, descobri que a partita se encontra neste CD. Baixei o tal álbum então, e veio imediatamente a pergunta: o que é “lute-harpsichord”? Primeiramente achei que o título queria dizer apenas que as obras em questão eram para cravo OU alaúde. Mas então percebi que, em alemão, o nome era um só: “lautenklavier”. Ora, trata-se de um instrumento musical extinto, mas que Bach estimava muito e inclusive possuia, como se afirma neste artigo da Wikipedia. O nome do instrumento é “cravo-alaúde” e sua sonoridade é única. É como se se tocasse um alaúde extremamente amplificado, com os graves bem nítidos e as cordas pinçadas por unhas mágicas que as fizessem vibrar muito mais intensamente. Bem, é exatamente isso que acontece. Repare na foto do instrumento e diga se não se parece com um violão gigante, com teclas:

O instrumento é como um cravo, só que mais melódico e com maior presença de graves. Simplesmente fascinante!

É incrível ouvi-lo tocando a partita.

Por fim, aqui está a versão para alaúde.

Ouça todas mil vezes como eu fiz e você verá quantas facetas possui uma música do grande mestre Bach.

 

P.S.: Posteriormente descobri que talvez a peça tenha sido composta justamente para cravo-alaúde (e não para alaúde, como se pensava), ou talvez para nenhum dos dois instrumentos. Mas isso é conversa para acadêmicos. A verdade é que a música de Bach, como se costuma dizer, é altamente abstrata e pode ser tocada em qualquer instrumento.

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