Um itinerário musical

 

Acho que vou dizer uma coisa meio óbvia, mas vamos lá: a música desperta estados de espírito, sentimentos, emoções no ouvinte. A principal diferença entre a música clássica e a popular é que a primeira, além de despertar estados emocionais, também assemelha-se (pelo menos na maioria das vezes) a um discurso com início, meio e fim – como que uma literatura de sons.

Quando ouço música clássica, quase sempre faço questão de dedicar toda a minha atenção ao que estou ouvindo. Não faço outras coisas enquanto ouço, por exemplo, uma sonata ou uma sinfonia. Se eu já tiver ouvido a música muitas vezes, posso até me dar ao luxo de usá-la como background para outras tarefas, do contrário acho uma verdadeira injustiça com a música não dedicar toda a minha atenção a ela; um desperdício mesmo. Mas, enfim, cada um sabe de si.

Voltando porém ao assunto, tem a coisa dos estados de ânimo. E é uma coisa séria. Às vezes fico meio triste, mentalmente confuso, nostálgico ou melancólico quando escuto uma determinada música. Às vezes tudo isso junto! Quando isso acontece, muitas vezes mergulho naquele sentimento até quase não conseguir voltar. Outras vezes adoto uma “estratégia” diferente: vou mudando de compositor, desde um cuja música é triste ou emocionalmente desestabilizadora até chegar em um cuja música seja mais racional e equilibrada. Outro dia, por exemplo, fiz assim. Comecei com um noturno de Chopin:

 

 

Fiquei bem mal (não se preocupem, já me recuperei!). Então passei a uma peça para piano de Mendelssohn, também romântica, porém mais equilibrada (Mendelssohn, segundo se diz, é o mais “clássico” ou “classicista” dos românticos):

 

 

Depois disso eu já estava mais, digamos, centrado. Mas ainda sobrava um quê de melancolia em meu coração, um sentimento de perda ou desamparo advindo dessa incursão pelo universo romântico, tão belo, mas tão fragilizador – e um tanto desiludido (no mau sentido da palavra). Então passei a esta sonata para piano de Haydn.

Foi reconfortante voltar para os braços da ordem e do equilíbrio depois de mergulhar na tormenta dos sentimentos humanos.

Não quero ser moralista, embora ache que já fui, mas quero dizer que o belo se manifesta de várias formas, algumas perigosas. Um ser humano maduro e dono de si deve saber dosar a fruição dos diferentes belos, do contrário arrisca-se a perder o controle de suas emoções. É bom perder o controle, mas também é bom “voltar”. Esta é uma lição que aprendi sobretudo com a música.

Advertisements