Hotéis evangélicos?

20110723-110626.jpg

Fico sempre um pouco feliz e um pouco assustado com a presença infalível de um exemplar do Novo Testamento em um quarto de hotel. Posso afirmar com certeza que não me lembro da última vez em que fiquei hospedado num hotel onde não houvesse um desses em meus aposentos temporários.

Fico feliz porque a palavra de Deus ainda está presente neste mundo ateu, ainda que escondida dentro de uma gaveta. Por outro lado, assusta-me um pouco a ideia de que essa palavra só venha propagada por evangélicos, sob a forma da palavra de Jesus, Jesus, sempre Jesus.

Além disso, acho muito esquisito que isso ocorra em redes internacionais, como Accor e Meliá. Os administradores brasileiros desses hotéis claramente fazem uma “travessura” ao colocarem esses exemplares do Novo Testamento nos quartos, já que o fenômeno evangélico é fortemente brasileiro e é improvável que a matriz dessas redes adote como política a distribuição desses exemplares.

Curiosidade: em pousadas às vezes não encontramos o tal livro. Numa pousada bicho-grilo onde eu fiquei no interior do Rio Grande do Sul não havia nem vestígio da dita publicação. O que havia sim era um monte de mandalas e um cartaz, na entrada do lugar, anunciando uma palestra de um índio brasileiro sobre a “construção do consenso”, eufemismo para “respeito as diferenças, desde que todo mundo seja igual”.

Advertisements

Um itinerário musical

 

Acho que vou dizer uma coisa meio óbvia, mas vamos lá: a música desperta estados de espírito, sentimentos, emoções no ouvinte. A principal diferença entre a música clássica e a popular é que a primeira, além de despertar estados emocionais, também assemelha-se (pelo menos na maioria das vezes) a um discurso com início, meio e fim – como que uma literatura de sons.

Quando ouço música clássica, quase sempre faço questão de dedicar toda a minha atenção ao que estou ouvindo. Não faço outras coisas enquanto ouço, por exemplo, uma sonata ou uma sinfonia. Se eu já tiver ouvido a música muitas vezes, posso até me dar ao luxo de usá-la como background para outras tarefas, do contrário acho uma verdadeira injustiça com a música não dedicar toda a minha atenção a ela; um desperdício mesmo. Mas, enfim, cada um sabe de si.

Voltando porém ao assunto, tem a coisa dos estados de ânimo. E é uma coisa séria. Às vezes fico meio triste, mentalmente confuso, nostálgico ou melancólico quando escuto uma determinada música. Às vezes tudo isso junto! Quando isso acontece, muitas vezes mergulho naquele sentimento até quase não conseguir voltar. Outras vezes adoto uma “estratégia” diferente: vou mudando de compositor, desde um cuja música é triste ou emocionalmente desestabilizadora até chegar em um cuja música seja mais racional e equilibrada. Outro dia, por exemplo, fiz assim. Comecei com um noturno de Chopin:

 

 

Fiquei bem mal (não se preocupem, já me recuperei!). Então passei a uma peça para piano de Mendelssohn, também romântica, porém mais equilibrada (Mendelssohn, segundo se diz, é o mais “clássico” ou “classicista” dos românticos):

 

 

Depois disso eu já estava mais, digamos, centrado. Mas ainda sobrava um quê de melancolia em meu coração, um sentimento de perda ou desamparo advindo dessa incursão pelo universo romântico, tão belo, mas tão fragilizador – e um tanto desiludido (no mau sentido da palavra). Então passei a esta sonata para piano de Haydn.

Foi reconfortante voltar para os braços da ordem e do equilíbrio depois de mergulhar na tormenta dos sentimentos humanos.

Não quero ser moralista, embora ache que já fui, mas quero dizer que o belo se manifesta de várias formas, algumas perigosas. Um ser humano maduro e dono de si deve saber dosar a fruição dos diferentes belos, do contrário arrisca-se a perder o controle de suas emoções. É bom perder o controle, mas também é bom “voltar”. Esta é uma lição que aprendi sobretudo com a música.

Modinhas

Não sei muito sobre modinhas. Sei que pouca gente as ouve hoje em dia e sei também que são a versão brasileira das “lieder” (canções) alemãs. Mario de Andrade era um estudioso delas e escreveu um livro sobre as modinhas brasileiras da época do Império. Recentemente fui a uma apresentação de canções de Schubert e Spöhr e me encantei. A soprano era Angela Barra. Ela também cantou modinhas e o compositor de algumas delas é Marlos Nobre. Não sei onde encontrar CDs de Angela Barra ou das composições de Marlos Nobre, mas graças a Deus o compositor, que ainda é vivo, tem uma página no Youtube, onde ele próprio colocou uma grande quantidade de modinhas compostas por ele. Deixo aqui uma de suas canções. É linda de chorar.

 

 

Também fiz este vídeo em uma outra apresentação a que fui, com Wilzy Carioca na voz:

 

Totentanz

Em tempos de Internet os músicos cada vez mais colocam no Youtube vídeos de suas apresentações. Nesse cenário, uma figura das mais presentes é Valentina Lisitsa, cujos vídeos de sonatas de Beethoven, como a Hammerklavier são particularmente impressionantes. Mas agora apareceu este do louco do Liszt:

Eu, de minha parte, acho que pianistas assim são loucos. Mas este é um tipo de loucura com a qual só temos a lucrar! Um tipo de loucura, digamos, corretamente canalizada para o enriquecimento espiritual de todos.

Uma curiosidade: a frase recorrente na obra é uma paráfrase do último movimento da Symphonie Fantastique, de Berlioz, e também foi usada como tema do filme O iluminado, de Kubrick. Vale ler este e este artigos da Wikipedia. Juntamente com o artigo sobre a obra de Berlioz, os dois últimos ajudam a entender o que tudo isso tem a ver com com a morte.

 

P.S.: Na verdade a melodia em si não é de Berlioz, mas de um canto gregoriano, conforme explica o próprio artigo “Dies Irae” da Wikipedia. No meio dos arranjos impressionantes de Liszt, junto com mais dezenas de acordes e notas, discerne-se uma simples e singela melodia:

 

Mendelssohn

 

Harold C. Schonberg, em A vida dos grandes compositores:

 

“O romantismo de Mendelssohn foi de longe o mais contido entre todos os grandes compositores em atividade durante 1830 e 1840.”

 

(…)

 

“Como pianista ele representava o estilo clássico puro, o oposto das trovejadas românticas da escola de Liszt ou das nuanças e dos efeitos de cor do estilo de Chopin.”

 

Lieder ohne Worte (Canções sem palavras), op.67 no.2:

 

 

“Quando compôs o octeto em mi bemol em 1825, provou que era um dos grandes. (…) O octeto é, de muitas maneiras, típico do compositor Mendelssohn. Ele segue os princípios estabelecidos para a sonata e nunca tenta quebrar novas barreiras. Não há nele nenhuma indicação de que na composição do menino de 16 anos reside um revolucionário pronto para vir à luz. Mas com que segurança e lógica é o vasto tema da abertura apresentado e desenvolvido!”

 

 

Uma das melhores gravações do octeto é a do Emerson String Quartet. Encontrei este documentário muito interessante sobre a tal gravação.

Uma experiência musical

Como já disse anteriormente, um dos aspectos mais interessantes da música clássica é a pluralidade de interpretações de uma mesma peça de música – a qual pode ser tocada por músicos diferentes, instrumentos diferentes ou ambas as “coisas”. Para mim, a maior fonte de fascínio, quando se trata de música barroca, está nas interpretações de uma mesma música com instrumentos diferentes. Considero um verdadeiro aprendizado ouvir a mesma peça tocada por instrumentos às vezes totalmente diversos, como o cravo e a flauta doce (que é o caso da música que pretendo mostrar neste post). Você aprende a ouvir aspectos diferentes da música quando a escuta em várias versões. Você conhece a música mais completamente, como se estivesse conhecendo uma pessoa.

Isso aconteceu comigo quando conheci a partita para alaúde BWV 997 de J. S. Bach. Eu achava que meu primeiro contato com a peça havia sido por intermédio de minha professora de flauta doce, que me deu um CD do qual ela participa e que trás a composição sob a forma de uma suíte para flauta doce, cravo e viola da gamba. Mas na verdade o primeiro contato foi através deste CD, em que o músico toca a composição em sua “versão” supostamente original, ou seja, no alaúde (eu disse “supostamente” porque hoje se questiona se a peça realmente foi composta para este instrumento). Curiosamente, como o alaúde não é um instrumento nem de longe tão melódico quanto a flauta doce, a partita não me marcou quando eu ouvi este CD e sua existência me passou despercebida, por assim dizer. Quando a ouvi no CD de minha professora (aliás é ela mesma quem toca a flauta doce; seu nome é Sueli Helena de Miranda) apaixonei-me pela música.

Ouça aqui esta linda peça e, quem sabe, apaixone-se também!

Depois de ouvir a interpretação acima dezenas de vezes, pesquisei mais a fundo e descobri que na verdade não era uma suíte, mas sim uma partita para alaúde (um instrumento cuja sonoridade, diga-se de passagem, faz a do violão parecer brincadeirinha de criança). Fui atrás da tal versão e descobri, para minha surpresa, que tinha o CD e já a havia escutado (como disse acima). Mas não vou reproduzi-la ainda, porque tenho algo mais interessante para dizer.

Pois bem, pesquisando mais, descobri que a partita se encontra neste CD. Baixei o tal álbum então, e veio imediatamente a pergunta: o que é “lute-harpsichord”? Primeiramente achei que o título queria dizer apenas que as obras em questão eram para cravo OU alaúde. Mas então percebi que, em alemão, o nome era um só: “lautenklavier”. Ora, trata-se de um instrumento musical extinto, mas que Bach estimava muito e inclusive possuia, como se afirma neste artigo da Wikipedia. O nome do instrumento é “cravo-alaúde” e sua sonoridade é única. É como se se tocasse um alaúde extremamente amplificado, com os graves bem nítidos e as cordas pinçadas por unhas mágicas que as fizessem vibrar muito mais intensamente. Bem, é exatamente isso que acontece. Repare na foto do instrumento e diga se não se parece com um violão gigante, com teclas:

O instrumento é como um cravo, só que mais melódico e com maior presença de graves. Simplesmente fascinante!

É incrível ouvi-lo tocando a partita.

Por fim, aqui está a versão para alaúde.

Ouça todas mil vezes como eu fiz e você verá quantas facetas possui uma música do grande mestre Bach.

 

P.S.: Posteriormente descobri que talvez a peça tenha sido composta justamente para cravo-alaúde (e não para alaúde, como se pensava), ou talvez para nenhum dos dois instrumentos. Mas isso é conversa para acadêmicos. A verdade é que a música de Bach, como se costuma dizer, é altamente abstrata e pode ser tocada em qualquer instrumento.