Trio de Shostakovich

 

Estou descobrindo os trios para piano, graças a uma rádio, esta aqui.

Veja este movimento de um trio de Shostakovich. Você consegue imaginar russos marchando? Ou dançando danças folclóricas? Depois vira pauleira, uma espécie de hipnose louca, fantasmagórica talvez. Depois fica triste de um jeito misterioso. Uma obra-prima, enfim.

 

 

 

O próximo

[Eric Weil, Filosofia Moral]

Às vezes me parece que descobrir em que consiste o amor ao próximo é tudo o que importa. Eu não sei amar ao próximo. Não sei mesmo? Se não sei direito nem o que é amar ao próximo, como posso saber se sei amar ao próximo? Talvez eu já o ame e não saiba disso.

De todo modo, sinto-me, ou melhor sei-me na obrigação de ama-lo conscientemente e não por acaso, como um animal.

E a obrigação de ajudar as pessoas a usar sua inteligência? Que crueldade, meu Deus! Elas não querem isso, mas você tem que faze-las querer? E como medir o quanto elas não querem isso? Porque se elas não quiserem com uma intensidade muito grande, isso significa que vivemos em uma dessas “situações” de que fala o autor ao fim da citação. Nesse caso não cabe tentar fazer as pessoas usarem sua inteligência, mas apenas recolher-se e tentar preservar em si o legado da Humanidade (com letra maiúscula), enquanto a humanidade (com letra minúscula) se deteriora até sei lá quando.

Jogar pérolas aos porcos é uma fatalidade? Não sei. Só sei que, ao fim, resta o desejo, aparentemente irreprimível, de faze-lo.

“Pérolas aos porcos”? O que estou dizendo? Onde esqueci minha humildade?

Autoconsciência e universalidade

 

A citação abaixo me agradou tão profundamente que resolvi coloca-la aqui. O trecho reflete sobre esta característica básica do ser humano, que é a de estar situado concretamente dentro de si mesmo e abstratamente (essa foi a melhor palavra que encontrei, mas lógico que é insatisfatória) fora de si mesmo.

 

“I have one outstanding trait in my character, which must strike anyone who knows me for any length of time, and that is my knowledge of myself. I can watch myself and my actions, just like an outsider. The Anne of every day I can face entirely without prejudice, without making excuses for her, and watch what’s good and what’s bad about her. This ‘self-consciousness’ haunts me, and every time I open my mouth I know as soon as I’ve spoken whether ‘that ought to have been different’ or ‘that was right as it was.’ There are so many things about myself that I condemn; I couldn’t begin to name them all. I understand more and more how true Daddy’s words were when he said: ‘All children must look after their own upbringing.’ Parents can only give good advice or put them on the right paths, but the final forming of a person’s character lies in their own hands.”

Anne Frank

[via quercetum]

Amontoado de ideias

A pessoa descobre que não gosta de nenhuma das características de sua profissão, mas acha que quem deve mudar é esta e não ela. Tocante.

Mas, deixando o sarcasmo de lado; infelizmente, no Brasil, profissão e vocação geralmente têm de ser coisas diferentes. As pessoas, no entanto, não aguentam admitir isso. Preferem se enganar porque é muito difícil lidar com uma desilusão que, no mundo moderno, afeta quase a totalidade de sua vida. Não está certo uma pessoa extrair da profissão 90% do sentido da vida. Tudo bem que o trabalho é uma das mais importantes esferas da vida humana, mas há vários tipos de trabalho, não só o profissional etc etc.

Esta é uma discussão interminável, que passa inclusive pelo curioso fato (que eu estava discutindo com amigos outro dia) de que o brasileiro geralmente não tem hobby – bem, pelo menos não um que seja digno do nome: cerveja e futebol não valem.

Antes eu dizia que não gostava de trabalhar. Hoje digo que não considero minha profissão como minha vocação. Faltam-me respostas a esse problema, que é um de meus maiores conflitos. Tranquilizo-me, entretanto, ao ver que a maioria das pessoas que o consideram resolvido em sua vida na verdade está se enganando.

Aí então você diz: “Uma pessoa pode passar o resto da vida se enganando e ser feliz assim.” É verdade, mas essa pessoa será feliz como um cão é feliz, não como um ser humano o é (leia esse livrinho de filosofia moral do Eric Weil que está na coluna aí do lado e você entenderá do que falo). Estará tudo bem para ela, mas não está para mim. Ignorance is bliss, mas até quando? Só até você ter um lampejo, por acaso, certo dia, como que num passe de mágica, e acordar do seu sonho de glamour profissional.

Enfim, só sei que a única forma de se livrar do trabalho é aposentando-se o mais rápido possível. Estou trabalhando nesse sentido!