Filho da P.

ruínas

 

Sou um filho de Brasília no entre ditaduras. Minhas lembranças são formadas basicamente por prédios públicos desertos nos fins de semana, caminhadas e pedaladas numa cidade deserta, árvores secas, fórmulas matemáticas, domingos de crepúsculo na janela do meu quarto com Dire Straits e Legião ao fundo, férias em planetas distantes.

Brasília hoje é outra coisa. Toda cidade em que se nasceu torna-se outra coisa, mas Brasília é diferente. Brasília já existia igual a hoje, mas as pessoas não estavam ali. Chegaram na época do Lula e nunca mais foram embora. Hoje se acumulam aos milhares e a cidade perdeu sua alma de abandono. Os prédios continuam estragados, as quadras poliesportivas continuam inutilizáveis, mas as ruas estão cheias de carros. Ruínas habitadas não fazem sentido. Ao menos não para mim. Antes Brasília era coerente, hoje é um ontem que virou amanhã e que não me atrai. Prefiro um hippie decadente vendendo colares do que um comunista trabalhador e cervejeiro que ama futebol e compra SUVs a prazo. Chamem-me de nostálgico à vontade. Sinto saudades das ruínas da minha infância, dos bonecos de Playmobil, dos parquinhos de areia onde as crianças brincavam, das mães chamando os filhos do sexto andar dos prédios e das imensidões desertas.

Sobretudo amo as imensidões desertas. A Terra desolada é mais humana que os botecos com cheiro de cerveja onde se empilham os funcionários públicos no happy hour pós-Lula.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s