Marques Rebelo, amigo de Carpeaux

As polêmicas intelectuais do passado são muito úteis para elucidar as características de uma cultura. Quando vêm, então, acompanhadas de reflexões de um amigo sincero da parte que está com a razão no duelo, aí mesmo é que vale relembrar a ocasião, para extrairmos dela não apenas a tristeza de quem enxerga as podridões da cultura nacional, mas a esperança de quem acredita que a beleza não se esquiva de habitar a lama.

Exemplo muito vivo disso foi o episódio em que, na década de 1940, um grupo de intelectuais tupiniquins atacou Otto Maria Carpeaux por ter este criticado Romain Rolland, ídolo das esquerdas à época. A polêmica pretende ter-se originado na suposta injustiça da referida crítica, mas na verdade a indisposição contra Carpeaux já pairava no ar, como se pode deduzir da afirmação de Marques Rebelo em um trecho de seu belo livro A guerra está em nós: “Falamos, páginas atrás, de certa nuvem negra e aziaga que se levantava ameaçadora sobre a desprevenida cabeça de Jacobo de Giorgio (…).” (Jacobo de Giorgio é o pseudônimo de Carpeaux no livro de Marque Rebelo).

Mas vejamos o trecho inteiro:

 

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O comentário de Marques Rebelo é muito esclarecedor e, além disso, revela uma consciência bastante aguda de que o Brasil não era exatamente uma sociedade civilizada à sua época (tampouco o é ainda hoje, mas isto fica para ser examinado em uma outra, como se diz, oportunidade). Carpeaux sabia guerrear, mas apenas segundo os padrões da guerra justa, não conforme os desregrados e primitivos mecanismos da “furiosa primitividade tropical”: as intrigas de inveja, corrupção e faccionismo que permeiam a sociedade brasileira, onde os mais cultos quase sempre despertam reação negativa em todos os demais.

Não festejemos demais o defensor Marques Rebelo, contudo. Em outros momentos de sua trilogia “O espelho partido”, suas fraquezas também se revelam. Ele também sabia ser despeitado com relação aos colegas escritores. Embora muitas vezes estivesse com a razão, e ainda que seu despeito nos tenha brindado com belíssimas amostras de arte literária, em outras foi deveras infeliz, sendo que o principal exemplo, a meu ver, está no juízo que fazia de Gilberto Freyre – que para ele não passava de um diletante a confundir sociologia com saudosismo: “O Sociólogo, meus amigos, não é um sociólogo, é um saudosista e daí seu lusitanismo ser, talvez, menos esperteza do que acentuada herança sebastianista adoçada com a nostalgia dos bangüês” (A mudança, 2a edição, p. 309).

Quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra. Confesso que costumo atirar as minhas. Marques Rebelo também atirava as suas. Era sincero, porém. Sem disfarces. Seus sentimentos transparecem naquilo que escreveu. Tomara que eu também o seja, e sempre, pois só a sinceridade nos salva do ridículo.

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O jornalista brasileiro típico é um populista frustrado. Um de seus momentos orgásticos é quando tem a oportunidade de falar “população ribeirinha” em cadeia nacional.