Cultura? Que cultura?

“A definição adotada pelos constituintes reflete a confusão entre ‘cultura’ no sentido antropológico e ‘cultura’ no sentido pedagógico. A primeira é um esquema descritivo, a segunda é um critério axiológico, valorativo. Erigir em valor a ‘cultura’ no sentido antropológico é um erro primário, pois, antropologicamente, a antropofagia, a escravidão ou a prostituição de crianças são tão culturais quanto rezar ou ajudar os pobres. A origem desse erro está numa outra propensão da cultura brasileira: o seu sociologismo. Consiste na hegemonia das Ciências Sociais sobre os demais setores do conhecimento, incluindo a Pedagogia e a Filosofia.”

[Olavo de Carvalho, em O imbecil Coletivo]

 

Essa nota de rodapé representa uma das primeiras vezes em que eu me identifiquei com algo que o professor Olavo havia escrito. Lembro-me de que estava na faculdade e cursava uma disciplina de antropologia. O texto a que a nota se refere também é maravilhoso. Vejamos:

 

“O ‘sentimento nativista’ brota entre os poetas do Brasil-Colônia, de início como vaga mistura de amor à paisagem com idéias antilusitanas. Ganha força com a Independência, tingindo de ‘cor local’, nos temas e na linguagem, as principais produções do Romantismo, e torna-se um programa explícito com Gonçalves Dias. Em 1872, fazendo o balanço de cem anos, Machado de Assis já assinala o ‘instinto da nacionalidade’ como a principal marca da nossa literatura. O instinto torna-se militante e agressivo no Modernismo de 1922, e na década seguinte ganha foros de profundidade científica na obra de Gilberto Freyre, que inspira a uma multidão de escritores e investigadores um movimento pela “redescoberta do Brasil “. Os anos 50-60, com os debates no ISEB, fazem do nacionalismo a doutrina pelo menos oficiosa do Estado, ao mesmo tempo em que o líder desta entidade, Álvaro Vieira Pinto, ergue sobre os conceitos de ‘nação’ e ‘desenvolvimento nacional’ toda uma Weltanschauung filosófica, ou pseudofilosófica. A consagração suprema vem em 1988, quando a Assembléia Constituinte, nascida do mais amplo movimento popular de nossa História, estatui como cultura tudo quanto seja ‘expressão do modo de vida’ do povo brasileiro. Aí o conceito de ‘nacional’ sobrepôs-se declaradamente a todos os demais critérios de valor de uma cultura: a beleza, a elevação moral, a eficácia no domínio sobre a natureza, a força pedagógica e até a veracidade pura e simples: se é brasileiro e expressivo, se é expressivamente brasileiro, é cultura. Paulo Coelho, por exemplo, ou Gugu Liberato.”

 

Creio que essas observações, devidamente contextualizadas e proporcionadas, aplicam-se a qualquer nacionalismo.

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