Breves e toscas constatações sobre o analfabetismo estético travestido de maturidade

Uma das barreiras que eu tive de transpor no meu caminho em direção ao gosto por literatura, e que na verdade continuo tendo de transpor todo dia um pouco, é aquela que se poderia chamar, na falta de um nome melhor, de estética do tosco.

Essa estética do tosco é, primeiramente, uma ética, um comportamento, uma visão de mundo fundada na idéia de que “não há poesia depois de Auschwitz”. Segundo essa visão do mundo humano, dizer coisas belas é “idealismo”, “cafonice”, sentimentalismo pobre de pessoas medíocres que não são capazes de enxergar a “verdadeira” face da realidade humana. É como quando você passa por uma região decadente da sua cidade e alguém então lhe diz: esta é a verdadeira Florianópolis. Ora, por que “verdadeira”? Obviamente a pessoa está aqui se reportando a um valor subentendido, um pressuposto velado, algo que todos aceitam como indiscutível, mas que ninguém nunca enuncia – mesmo porque se enunciasse, revelaria imediatamente o ridículo da idéia: que uma parte da cidade é mais verdadeira que as outras!

Analogamente, o que está pressuposto em tal postura é que o homem tornou-se incapaz de dizer coisas belas depois que “descobriu” a feiúra, ou então que, ao dizê-las, está sendo ingênuo ou hipócrita.

Bem, aqui precisamos ir por partes. Primeiramente, “o homem” não existe propriamente. Eu não tenho nada a ver com Auschwitz. Se aqueles sujeitos lá foram capazes de fazer o que fizeram, isso não implica que eu o seja também, nem muito menos isso me impede de enxergar o belo no mundo e fora dele. Em segundo lugar, se o feio existe, e é claro que existe, não foi descoberta do maravilhoso homem moderno. Percebe como somos prepotentes? Até na ruindade o homem moderno acha que superou seus antepassados – e, pior, gaba-se disso. Ora, decerto que “superou” mesmo, mas antes por falta de capacidade de enxergar a feiúra, o mal, do que por excesso. Percebe a inversão? Os homens, em um dado momento da história, infantilizam-se, tornam-se extremamente ingênuos e otimistas, e por isso inventam doutrinas idiotas e auto-enganosas que terminam por matar dezenas de milhões de pessoas. Depois descobrem isso – mal e porcamente, diga-se passagem, pois tais doutrinas ainda estão aí (o que descobriram foi apenas a maldade concreta do genocídio) – e então passam a se achar os reis da cocada preta.

O resultado da história então é o seguinte: você não é nenhum ser superior que está acima da beleza e que portanto tem o direito de se entediar com a leitura de, digamos, Jane Austen. Você (lembre-se de que estou me incluindo aqui, sempre) não passa de um idiota moderno que não aprendeu a apreciar a beleza da arte e que por isso acha os romances chatos, cafonas, piegas, demasiado ternos na melhor das hipóteses; preferindo a eles a leitura de uns tratados escolásticos, de uns contos “lado B”, de umas crônicas diárias do que acontece em Brasília etc etc (conforme a “tchurma” a que você pertença no Facebook).

Não tenho uma fórmula para escapar disso. Eu mesmo levei uns 10 anos para lográ-lo, durante os quais progredi aos trancos e barrancos na busca de superar a minha “apeirokalia” (vide artigo homônimo de Olavo de Carvalho em O imbecil coletivo 2). Mas digo que é preciso ao menos tomar-se consciência disso! Em um certo momento da minha vida, eu disse a mim mesmo: “Evandro, tome vergonha na cara e eduque-se esteticamente!”

Sugiro que todos façam o mesmo. Vale a pena.

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