Pensando sobre rachaduras minutos antes de dormir

Como natural que sou de Brasília, devo confessar que uma das imagens que me formaram, que eu retive em mim, foi a da ruína. Trago na memória aqueles prédios vazios, aquelas construções abandonadas, o capim nascendo entre as rachaduras do concreto sujo de fuligem, as quadras esportivas sem pintura, repletas de trincados e habitadas por lagartixas a tomar sol. Desde muito cedo eu devo ter formado na mente e absorvido em minha personalidade essa idéia, tão próxima da melancolia, da tristeza e, por um outro caminho analógico, do estático, da apatia e da inatividade.

O curioso, porém, é que não sinto que esses símbolos tenham formado em mim somente caracteres negativos, pois hoje quando volto a Brasília, sinto saudades dos domingos em que eu andava de bicicleta pela cidade e tudo estava ermo. Parece que eles também geraram em minha personalidade uma inclinação para a contemplação, um bucolismo, uma sensibilidade poética e filosófica. Será que existe isso? Um bucolismo pós-industrial à la Mad Max? Deve existir. Vide o próprio filme, não é mesmo? Quero dizer, o estar só, o estar perdido no mundo, não é disso que vem a força do personagem de Mel Gibson? Ele parece ser uma espécie de estóico do asfalto. Decerto que lhe falta profundidade, mas a marca essencial, a inclinação, a predisposição e a sensibilidade estão lá.

Falta preencher tudo isso de conteúdo e de saber.

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