Vai embora, verão!

O calor do verão aqui no Sul só vai embora quando o inverno o enxota, porque se dependesse dele ficava pra sempre, revirava as estações numa dobra quântica até matar todo o mundo de enfado e indolência.

Sorte que chega o primeiro sopro de inverno, no meio do outono indeciso. O outono é o social-democrata das estações do ano. Eita sujeitinho hesitante!

O jornalismo brasileiro morreu

Transcrevo aqui um lindo post de uma amiga minha do Facebook, Flavia Greco.

“Cristiana Lobo falou durante grande parte do dia de ontem na GloboNews que, a presidente teria que mudar o rumo depois das manifestações e se reinventar.
Quem tem que mudar o rumo urgentemente e se reinventar é o jornalismo brasileiro.
Não, não basta mais colocar um link para ler mensagens ao vivo durante o programa e chamar isso de interatividade. Não basta mais ter uma coluna sobre os assuntos mais comentados da semana na internet. A internet tomou o protagonismo. Ponto!
As consequências desta primeira grande manifestação de 2015 serão vistas e melhor analisadas. Agora, não temo em dizer que uma consequência para mim ficou clara a medida que Cristiana Lobo se constrangia para aconselhar mudanças para a presidente, e eu acompanhava os fatos via internet- sites e facebook: quem foi finalizado ontem em primeiro, foi o jornalismo brasileiro. Dizendo melhor, a forma de fazer jornalismo que parece engessada para alguns.
Foi este jornalismo saturado que caiu, o jornalismo de gabinete, de ar condicionado, cabelo bem montado e nada mais. Que cobra presença política mas está distante a uma galáxia do que ocorre na rua e na vida das pessoas.
O jornalismo da matéria claramente “patrocinada” que depois levanta a voz para criticar o sensacionalismo do jornalismo dos outros.
O jornalismo de enfase as ongs para salvar o mundo, e chapa branca na hora de se manifestar contra os que ferram com o mundo a ser salvo.
O jornalismo caga regra, limitado, fugaz e superficial, que não contribui para informação valida e transformadora, como pretensiosamente diz fazer.
O jornalismo de falsos mártires e heróis, que protesta por uma imprensa livre, mas ignora uma colega de profissão sabidamente perseguida pelo poder político.
O jornalismo que se manifesta polidamente contra o ataque a uma revista pela matéria que jornalisticamente, ousadamente, livremente publicou, mas não se volta junto com esta revista para apurar os fatos e dar nome aos bois.
Finalizado ontem foi o jornalismo que se recusa a conhecer a nova linguagem, que pensa estar falando o tempo todo para um bando de acéfalos que vão engolir facilmente o que o seu mestre financiador mandar. Que ainda se engana pensando formar opinião mais do que a internet, usando a internet apenas como um suporte da sua vida de jornal e estúdio.
O jornalismo que separa e divide ao destilar artigos cheios de preconceito, mas paga uma de democrático e defensor de minorias.
O jornalismo que ainda está preso em memórias da ditadura militar e continua vendo o Brasil dividido entre direita opressora e esquerda oprimida.
O jornalismo que forma militantes nas faculdades e depois exige imparcialidade jornalística dos profissionais.
O jornalismo que ignora o continente do qual fazemos parte.
O jornalismo que cria zumbis da informação.
O jornalismo que se torna um braço da opressão ao defender pseudo liberdades.
O jornalismo que contribui para uma identidade brasileira distorcida do que de fato é, e com isso contribui não apenas para a ditadura do politicamente correto, como para a eleição de déspotas hipócritas e a formulação de leis incoerentes com a situação atual da sociedade.
O jornalismo que não sabe rir sem perder a seriedade. Que insiste numa imparcialidade piegas que as vezes não pode existir, pois se torna hipócrita e omissa.
O jornalismo que ignora blogueiros, articulistas, sites que melhor se adaptaram a linguagem da internet e conseguem ter maior poder de persuasão do que os velhos figuras do meio e seus históricos de perseguição usados para lhes garantir credibilidade, como se isso lhes conferisse hoje estar acima do bem e do mal para julgar e opinar sobre os fatos.
O jornalismo que, atrás da bancada, enfatiza em tons dramáticos de horror o terrorismo internacional, mas não cita o terrorismo aqui, no continente no qual estamos.
Em meio a tudo isso alguns conseguem se atualizar e se comunicar sabendo para quem estão falando, ainda que dentro de redações de jornais e revistas e atrás das bancadas de tv. Estes não ignoram onde está a palavra que não pode ser ignorada.
Existe um afã por expressão e na internet todo mundo se acha jornalista, ou um pouco jornalista. Alguns se comprometem, outros não o suficiente para encarar as responsabilidades devidas, mas isso não anula a internet como principal meio de influência sobre a opinião pública hoje.
Parece fácil dizer que internet é o meio de comunicação do mundo atual, e que é um caminho sem volta, e lá lá lá… Mas o que vejo é que nem todos dominaram ainda, ou buscam dominar, a velocidade, o estilo que este meio exige. Nem todos aceitaram ainda dividir seu “poder de formar opinião” com blogueiros e pessoas sem o tal diploma da faculdade que se faz para aprender a perguntar: quando? onde? por que? Ou para aprender a movimentar os braços e dar a entonação de texto padronizada. Todos fazem igual!
De ontem para hoje ouvi e li algumas manipulações, desinformações e distorções de quinta categoria sobre as manifestações. Considerando apenas que houve desatualização e não má fé, uma semana acompanhando os sites certos e alguns perfis dos facebook, daria a estes “jornalistas” uma dimensão real do que está por trás deste movimento e mostraria para eles que sim, depois da revolução digital e do acesso livre a todo o tipo de fontes de informação, o que move o Brasil não é mais o mesmo clube de DCE e derivados.
Destaco O Antagonista, mas poderia felizmente citar muitos outros.
O Antagonista que chegou ao meu ver como um sinal claro deste novos tempos que se confirmaram ontem, no dia da primeira grande manifestação do ano.
Souberam fazer cobertura, sabem dizer que não conhecem bem ainda a linguagem da internet e os mecanismos da internet, compartilham o título de antagonista com todos os colaboradores e leitores do jornal, gravam uma reunião de pauta com link direto de suas casas e publicam isso, sem edição. Estão entranhados na internet como nós, sem um mundo de links de acesso que nos distancie do jornal. Estão pagando pra ver, tanto quando nós. Não desmerecem a influência de quem estava aqui antes e comanda certos movimentos na “coisa toda da comunicação”. Ao contrário, eles se metem, criticam, perguntam, chamam atenção, querem estar no meio. Não se omitem. A marca dos protestos que começaram ontem, tem o dedo desta imprensa verdadeira, pulsante, com os fatos na mão e na experiência, sem perder a imparcialidade, mas tornando parcial o que é decente e deve ser defendido.
O jogo mudou! Tem gurizada blogueira que leva multidões as ruas, enquanto tem jornalista de anos de profissão, chapa branca, falando sozinho na sala de alguém.
Não digo nada disso por despeito, não tenho despeito algum com o jornalismo. Digo tudo isso em tom de descarrego mesmo. Se um dia eu voltar a faculdade de jornalismo, não descarto, sei que será um exercício espiritual e emocional. Porque neste tempo longe de lá, eu nadei em outras águas.
É hora de se reinventar.”