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Archive for April, 2015

Traduções brasileiras de literatura, quando não estão simplesmente erradas, soam mal.

Dou um exemplo, sem identificar o autor, que é pra não influenciar. Perceba, além do fluir da fonética, a riqueza do vocabulário e da sintaxe:

Tradução portuguesa:

“Desmond Pepperdine (Desmond, Des, Desi), o autor deste documento, tinha quinze anos e meio. E a sua caligrafia, hoje em dia, era compenetradamente elegante; as letras costumavam inclinar-se para trás, mas ele treinara pacientemente incliná-las para diante; e quando tudo se combinava com lisura ele começava a acrescentar pequenos floreados (o seu ‘e’ era positivamente ornado — como um ‘w’ virado de lado). Usando o computador que agora partilhava com o tio, Des ministrara a si próprio um curso de caligrafia, entre vários outros cursos.”

Tradução brasileira:

“Desmond Pepperdine (Desmond, Des, Desi), autor desse documento, tinha quinze anos e meio. E sua caligrafia, no momento, era de uma elegância tímida; as letras tendiam a se inclinar para trás, mas ele, com toda a paciência, as obrigava a inclinar-se para a frente; e quando tudo estava suavemente unido, adicionava pequeninos floreios (seu ‘e’ era sem dúvida ornamental — como um ‘W’ virado de lado). Usando o computador que agora compartilhava com o tio, Des resolveu fazer um curso completo de caligrafia, entre vários outros cursos.”

É nos detalhes que o bom tradutor trabalha. Perceba, por exemplo, como “mas ele treinara pacientemente incliná-las para diante” está muito mais bem resolvido que “mas ele, com toda a paciência, as obrigava a inclinar-se para a frente”; ou como “quando tudo se combinava com lisura” é mais natural que “quando tudo estava suavemente unido”; ou, ainda, o quanto “ministrara a si próprio um curso de caligrafia” é mais rico que “resolveu fazer um curso completo de caligrafia”.

Agora leia o trecho em inglês e veja como a tradução portuguesa, além de tudo, ainda guarda mais respeito ao original:

“Desmond Pepperdine (Desmond, Des, Desi), the author of this document, was fifteen and a half. And his handwriting, nowadays, was self-consciously elegant; the letters used to slope backward, but he patiently trained them to slope forward; and when everything was smoothly conjoined he started adding little flourishes (his e was positively ornate—like a w turned on its side). Using the computer he now shared with his uncle, Des had given himself a course on calligraphy, among several other courses.”

P.S.: O trecho é de “Lionel Asbo”, de Martin Amis.

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Sobre o livro The Actual, de Saul Bellow, eu escrevi umas reflexões no Goodreads, em inglês, e depois as completei em português. Seguem abaixo. O que me levou à leitura foi o curso Literatura e Autobiografia, muito bom por sinal, recomendo-o fortemente a quem esteja interessado a viver sua vida pessoal com mais autenticidade, autoconsciência e, conseqüentemente, humanidade.

“I stood back from myself and looked into Amy’s face. No one else on all this earth had such features. This <i>was</i> the most amazing thing in the life of the world.” [p. 104]

I think what makes this book great is not that it is a love story or the story of two lives that come to accept each other, but rather that this acceptance is a spiritual one and therefore eminently REAL. Harry and Amy are always present to one another, always mutually actual. The other people who they meet in their lives, even husbands and wives, are not actual, even if they are real and present, because actuality is inside us. One can be with another person physically but not be with this person in actuality, i. e., spiritually connected or REALLY connected. That’s where the “magic” is. And what we sometimes call the magic of love is nothing more than the reality which is right in front of us but we refuse to see. It’s something simple, but then we’re so complicated that we don’t come to see it and accept it.


Escrevi mais coisas sobre o livro depois de conversar sobre ele com um amigo, então acrescento-as a esta resenha. Eis:

A vida dos personagens é um pouco diferente da minha, mas isso é interessante, porque funciona como uma “hiperbolização” da história, o que dá mais força às experiências e as torna mais “visíveis” a mim, o leitor. Eu vivi experiências semelhantes às deles, mas em grau reduzido de intensidade, digamos assim.

A prosa do Bellow é muito bonita, e isso não se transferiu para a tradução brasileira. É bonita de um jeito simples. Não há muita estetização, mas a leitura flui com suavidade, é como se estivéssemos ouvindo alguém falar, e falar perfeitamente claro, sem tropeços nem gaguejadas. Nas traduções portuguesas de que eu andei lendo trechos, isso aparece mais, porém não nas brasileiras. Alguém precisa ainda escrever um livro sobre a superioridade das traduções lusas sobre as brasileiras.

Sobre a mensagem do livro, acho que o título da tradução lusa revela bem a idéia: “A autêntica”. Eu traduziria não exatamente assim. Traduziria como “Autenticidade”. Seria perfeito, pois transmitiria aquilo que a Luciane fala na aula, todos aqueles significados da palavra “actual”. Pois a mensagem do livro é justamente isso, ou seja, a autenticidade do amor verdadeiro, que não depende de sentimentalismos ou de um romantismo medíocre, mas simplesmente de uma empatia profunda, essencial, em cima da qual se exerce – sem limites e sem a necessidade sequer da presença física – a imaginação de quem ama. É quando o protagonista reconhece isso, ou seja, quando ele aceita aquilo em si mesmo, que ele consegue transformar a potência de seu amor em ato.

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Infopaciência

Computadores são subcriaturas burrinhas. A ignorância desse fato dificulta o aprendizado da informática. O usuário de computador que acredita piamente no que este lhe diz dá-se muito mal, pois essa máquina limitada pode ser incapaz de identificar até mesmo seus próprios erros. Assim, quando ela lhe diz que “o arquivo não pôde ser aberto” porque está “corrompido”, talvez o problema seja a presença de um sinal de ponto e vírgula no nome do arquivo. Apague o sinal e o programa, com a maior cara lavada, abrirá o arquivo normalmente! Da mesma forma, quando você procura um livro numa biblioteca virtual digitando seu título, pode ser que não apareça nada e que o livro pareça raríssimo. Então você experimenta digitar apenas duas das palavras do título e o sobrenome do autor. Repentinamente, surgem milhares de ocorrências e você então descobre que a palavra que você suprimiu fora digitada erradamente pelo funcionário que catalogou o livro, ou que simplesmente ela era acentuada e o “sistema” (ah, o sistema!) transformou a sílaba acentuada em um &aotc%#, ou algo semelhante.
É preciso ter paciência com os computadores, não menos que com os homens que os criaram.

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Conviver para além de casa parece necessário, mas é tedioso como se deu hoje à tarde, não propriamente tedioso mas antes inútil, bobo. É o que eu senti, que eu sinto. Quando me isolo muito, sinto um vazio. Quando porém muito convivo, o cheio é um cheio de areia que entope apenas. As pessoas são pobres, isso influi. Mas a arte é tão rica, o estudo é tanto mais! Largá-los, só vale se for pelo simples, pelo caminhar um cão, o amar durante o jantar, o estar em silêncio ao lado, o sentir uma presença linda humana de quem se ama sem ter de falar, de trocar nadas com cara suposta de algo relevante. Largá-los por aquilo que chamam de os outros, mas outros ocos, não vejo o porquê de fazê-lo. Mas a vida nos leva aonde outros menos livres que nós querem ir, acham que precisam ir, e nós vamos – eu vou. Distraio-me, não nego, mas então que direito tenho eu disso se toda a minha vida é desperdício metade do tempo? Deus me perdoe. Deus nos perdoe.

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Chuva mansa

É sublime ler um livro no aconchego do lar enquanto a chuva mansa cai lá fora, com jeito de não parar nunca mais. O Paraíso poderia ser assim: a eternidade de uma chuva lá fora, uma biblioteca infinita aqui dentro, uma poltrona e uma luminária. O resto moraria na minha mente, mas seria real!

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Falando ao silêncio

Gosto de escrever em um blog. Porque me agrada falar ao silêncio, falar o que quero e não ouvir o que não quero. O Facebook é muito respondão, muito invasivo. O Twitter, esse também serve, mas ali não se fala, ali se gagueja.

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Terminei de ler Mapa del mundo personal, de Julián Marías.

Não me atrevo a resenhar este livro, embora confesse que deveria fazê-lo e, mais ainda, que isso seria uma espécie de dever para comigo mesmo! Porém, parafraseando o General Washington ao ser incumbido de defender os colonos contra os britânicos, esta é uma tarefa acima de minhas qualificações – a diferença é que ele não foi covarde como eu, e assumiu-a.

Deixo então apenas uma citação:

“El hombre, si es veraz, encuentra que es «poca cosa»; y al mismo tiempo descubre, con asombro y cierto espanto, que es una persona en la que se podría ahondar indefinidamente, más aún, que invita a ello, que lo reclama, y si no se hace se tiene la impresión de estar huyendo de uno mismo.” [p. 204]

Portanto, fujo mais uma vez de mim mesmo!

Uma coisa que me ocorreu quando qualifiquei com estrelas este livro foi que sou incapaz de hierarquizar, senão grosseiramente, os livros em matéria de qualidade. Só consigo dar menos estrelas a um livro quando este é muito nitidamente inferior. Diferenças mais sutis entre um livro e outro me parecem sempre secundárias, como se não justificassem uma mudança de nota. Afinal, se um livro é de leitura indispensável, se tê-lo lido se me afigurou muito melhor do que o não tê-lo, como dar-lhe uma nota menor?

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