Tradução literária: Um exemplo

Traduções brasileiras de literatura, quando não estão simplesmente erradas, soam mal.

Dou um exemplo, sem identificar o autor, que é pra não influenciar. Perceba, além do fluir da fonética, a riqueza do vocabulário e da sintaxe:

Tradução portuguesa:

“Desmond Pepperdine (Desmond, Des, Desi), o autor deste documento, tinha quinze anos e meio. E a sua caligrafia, hoje em dia, era compenetradamente elegante; as letras costumavam inclinar-se para trás, mas ele treinara pacientemente incliná-las para diante; e quando tudo se combinava com lisura ele começava a acrescentar pequenos floreados (o seu ‘e’ era positivamente ornado — como um ‘w’ virado de lado). Usando o computador que agora partilhava com o tio, Des ministrara a si próprio um curso de caligrafia, entre vários outros cursos.”

Tradução brasileira:

“Desmond Pepperdine (Desmond, Des, Desi), autor desse documento, tinha quinze anos e meio. E sua caligrafia, no momento, era de uma elegância tímida; as letras tendiam a se inclinar para trás, mas ele, com toda a paciência, as obrigava a inclinar-se para a frente; e quando tudo estava suavemente unido, adicionava pequeninos floreios (seu ‘e’ era sem dúvida ornamental — como um ‘W’ virado de lado). Usando o computador que agora compartilhava com o tio, Des resolveu fazer um curso completo de caligrafia, entre vários outros cursos.”

É nos detalhes que o bom tradutor trabalha. Perceba, por exemplo, como “mas ele treinara pacientemente incliná-las para diante” está muito mais bem resolvido que “mas ele, com toda a paciência, as obrigava a inclinar-se para a frente”; ou como “quando tudo se combinava com lisura” é mais natural que “quando tudo estava suavemente unido”; ou, ainda, o quanto “ministrara a si próprio um curso de caligrafia” é mais rico que “resolveu fazer um curso completo de caligrafia”.

Agora leia o trecho em inglês e veja como a tradução portuguesa, além de tudo, ainda guarda mais respeito ao original:

“Desmond Pepperdine (Desmond, Des, Desi), the author of this document, was fifteen and a half. And his handwriting, nowadays, was self-consciously elegant; the letters used to slope backward, but he patiently trained them to slope forward; and when everything was smoothly conjoined he started adding little flourishes (his e was positively ornate—like a w turned on its side). Using the computer he now shared with his uncle, Des had given himself a course on calligraphy, among several other courses.”

P.S.: O trecho é de “Lionel Asbo”, de Martin Amis.

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