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Archive for May, 2015

Descobri por acaso uma contista norte-americana, a Lydia Davis. Em um de seus contos, ela narra sua fixação com uma lagarta que encontrou em seu quarto. Diz que não mata nenhum ser vivo desnecessariamente, então pega a lagarta com um papel e, como não havia nenhuma janela de onde pudesse jogá-la, resolve descer as escadas de casa e deixá-la no jardim. No caminho, porém, a lagarta cai e, muito pequena, some de vista na escadaria. Por várias horas, a narradora se lembra do assunto, chega mesmo a procurar a lagarta várias vezes, até que desiste. Tudo isso é contado nos mínimos detalhes. Fiquei pensando em como parecemos importantes na Internet, quando na verdade somos como essa mulher, no dia a dia. Ou nem isso, pois qual de nós seria capaz de descrever as coisas que faz, mesmo as mais idiotas, com um pouco de precisão que seja?

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Aos poucos

Aos poucos, vou descobrindo por que, por tanto tempo, eu não gostei de literatura. A tradução brasileira é uma merda. Provavelmente, metade dos livros que a gente acha ruim é por culpa do tradutor, esse porco imundo que se arrasta pelos rincões da existência, sem nem ao menos valer-lhe a dignidade do anonimato na caridade de sua oferta. Oferece-nos, o porco, umas pérolas encharcadas de lama e esterco. Chafurdamos ali, então, por anos a fio. Quem sai do outro lado, ou vai se limpar, ou porco já se tornou também.

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Dia desses fui buscar na biblioteca daqui um livro de Mauriac. Mas não pude retirá-lo: estava na seção de obras raras, informou-me a bibliotecária, pois era “de 1943!” (palavras da “mesma”). E por oito reais, recebo hoje este livro que figura na foto, impresso – pasmem – em 1938! Suponho que, quando eu tiver oitenta anos, metade do que hoje se encontra nas prateleiras daquele triste lugar estará na seção de obras raras. Pior: eu mesmo lá estarei!

Certa vez, meu irmão, a quem agrada admirar casas antigas, parou em frente a uma casa na cidade de Anchieta (Espírito Santo) e ficou olhando-a. Havia, na fachada, a data da construção. Pois bem, ao lado do meu irmão estava meu tio, e a data da casa era posterior à do nascimento deste. Meu tio disse então ao meu irmão: “Por que você não olha pra mim, em vez de olhar para a casa?”

Se um simples romance de 1943 está na seção de obras raras e, conforme me informou a sempre solícita bibliotecária, “só pode ser manuseado com luvas”, imagino que meu tio – que ainda está vivo e tem mais de noventa anos – deva estar sendo atualmente conservado em formol. Vou telefonar aos meus primos e perguntar-lhes se a suposição confere! 

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Verdade seja dita: A suposta habilidade das novas gerações para lidar com a informática não passa de um mito. Os jovens de hoje, salvo as exceções de sempre, não sabem realizar as mais básicas operações, como fazer buscas decentes no Google, gerenciar arquivos num drive virtual, ou até mesmo efetuar registro e login em serviços de internet. Não são capazes de aprender sozinhos as funções básicas dos mais intuitivos softwares do mercado, não conseguem fazer download se o botão não trouxer estampada a palavra “download” (e não houver nenhuma outra etapa no processo) etc etc. Hoje rasgo mentalmente todos aqueles textos pseudoproféticos escritos por americanos empolgadinhos – falando de quarta onda, baby boomers, generation x – que eu li na faculdade de comunicação. Tudo enganação. O que vale mesmo é a boa e velha decadência cultural, com seus sintomas arquiconhecidos – como, neste caso específico, a dificuldade de intuir procedimentos e padrões de funcionamento, e de lidar com imprevistos secundários que não alteram o rumo de um processo. É, meus amigos, autodidatismo! Conhecem?

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