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Archive for June, 2015

Antes de tudo, quero dar um conselho: Não leia esse livro nesta tradução (Rocco, 2001). A língua portuguesa no Brasil está em franco processo de auto-destruição por analfabetismo funcional, e essa tradução é um sintoma quase perfeito disso.

Ravelstein é muitas coisas: autobiografia ficcional (provavelmente baseada, ao menos em parte, em experiências reais), biografia ficcional, romance narrado em primeira pessoa, filosofia, sociologia etc. Dizer isso é ser redundante, claro, mas ressalta um aspecto peculiar do livro: o estilo de crônica.

O título é o sobrenome de um professor de filosofia política, uma figura “excêntrica”, mas entre aspas porque trata-se de uma legitimidade e não de uma excentricidade. Em tempos de falsificação e mentira generalizada nos meios acadêmicos, quem busca a verdade e vive uma vida inteira com sinceridade torna-se um excêntrico. Em terra de loucos, os normais é que são socialmente reconhecidos como loucos. E o mundo hoje é, acima de tudo, terra de loucos – loucos burgueses politicamente engajados em qualquer merda que surja na frente e que esteja a serviço da destruição da civilização ocidental e, ao mesmo tempo, loucos com medo de tudo e de todos e da morte enfim. Presas fáceis de inimigos como o Islã, o comunismo russo renovado em putinismo e a Nova Era. E, acima de tudo (no caso desta obra em particular) o anti-semitismo.

São reflexões como essas que povoam o livro de Saul Bellow, um Nobel que merece ser Nobel, ao contrário de um Modiano e de um Saramago, dois insossos, este mais ainda que aquele.

As reflexões, dentro de um romance, parecem sempre mais interessantes, mais verossímeis, obviamente porque estão entremeadas com a narrativa, que nos dá esse contato com a realidade que a filosofia em geral não dá diretamente (mas deveria e, de fato, dá quando é verdadeira e boa). E neste romance aqui, escrito em tom de bate-papo, de história que bem poderia estar sendo contada em uma sala de estar por um amigo íntimo, reflexão é sinônimo de auto-análise existencial. O narrador se analisa enquanto analisa o “biografado” Ravelstein e os outros personagens, também parcialmente biografados e, acima de tudo, psicologicamente sondados.

Não sei bem por que não lhe dei cinco estrelas. Talvez porque falte algo, talvez porque eu gostaria que o autor fosse mais poético, o que é mais uma expectativa minha do que qualquer outra coisa. A verdade é que temos aqui um ótimo livro, que nos faz pensar em nossa própria vida, nossos próprios problemas, defeitos, imbecilidades, em como somos burgueses ávidos por uma segurança material e psicológica que corrói a legitimidade e reduz a nada o sentido da vida. E quando digo “burgueses”, e quando o autor o diz, não é como um socialista o diria, não é como um ambientalista diria ao se referir a um yuppie; pois socialista e yuppie são papéis sociais, não são pessoas. Ravelstein, sob esse aspecto, é um yuppie em seus hábitos, na maneira como se veste e nas coisas que compra. Aqui está a melhor característica do livro, o que lhe confere sua profundidade: Ravelstein é uma pessoa que não pode ser “lida” pelo que veste ou compra. Ele é muito mais que isso, embora também seja vítima de seu tempo em vários aspectos – afinal quem o não é?

Além de ser o perfil de um biografado ficcional, o livro é o perfil do biógrafo e de algumas outras personagens, como a ex-mulher deste e sua atual mulher. O mais importante, porém, é que é o perfil de uma época, é o retrato do mal do século ocidental. E tudo isso sem deixar de ser literatura, muito boa literatura.

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