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Archive for July, 2015

Se eu fosse fazer um estudo sobre o problema das más traduções no Brasil, investigaria estas “frentes”:

1) Os editores precisam dar mais atenção à escolha dos tradutores. Precisam construir uma boa rede de relacionamentos, da qual possam extrair boas indicações de tradutores, feitas por outros tradutores ou editores. Depois, dentre os tradutores indicados, é preciso verificar se o trabalho deles é realmente bom. Deve-se fazer um teste, em que se pede ao tradutor que traduza um trecho de um livro, e essa tradução precisa ser julgada. Aqui entra outro problema: quem tem capacidade para julgar? Muitas vezes os próprios editores ou coordenadores de uma editora não escrevem bem e, portanto, não sabem julgar a qualidade do português que lêem.

2) Quanto ao preço que se paga pelo serviço, existe um patamar abaixo do qual os tradutores com mais experiência (pelo menos uns 5 livros traduzidos) não trabalham, ou melhor, preferem não trabalhar. Esse patamar está mais ou menos nos 25 reais. Abaixo disso, as traduções geralmente ficarão piores. Por outro lado, acima disso não há garantia de que fiquem boas. Ficarão melhores que as outras, mas ainda assim podem ficar bem ruins – ruins de outro jeito, mas ruins. O mais importante é manter o preço acima de 20 reais e, sobretudo, saber escolher bons tradutores. Estes, muitas vezes, e digo isso por experiência própria, aceitam receber menos, ainda que apenas esporadicamente.

3) É preciso que os editores contratem tradutores profissionais, ou seja, que tenham formação na área ou que ao menos trabalhem principalmente com tradução. Pela experiência que eu tenho, muitas vezes o editor contrata “especialistas” na área temática do livro a ser traduzido ou então simplesmente estudiosos que partilham dos mesmos interesses que ele. Essas pessoas, mesmo quando escrevem razoavelmente bem, geralmente não fazem boas traduções.

4) Além de todos esses problemas profissionais, há um outro mais profundo: o Brasil passa por uma fase de crise cultural extrema. Pouca gente sabe escrever bem em português. Num cenário assim, a rigor, não dá para esperar muita melhora, pois formou-se um círculo vicioso. Para quebrar o círculo, é necessária a atuação de pessoas “de fora” dele.

5) Há dois tipos de problemas de qualidade da tradução. O primeiro é aquele em que o texto gerado contém erros crassos de português e de interpretação de frases e termos do original. Esse tipo de tradução é feito por pessoas cujo português é muito fraco (geralmente pessoas que foram alfabetizadas pelo sistema sócio-construtivista) e que ademais não sabem fazer pesquisa direito nem têm capacidade de descobrir o significado de uma palavra ou o sentido de uma frase a partir do contexto ou da interpretação dos campos semânticos dos termos. Isso é mais comum nas pequenas editoras. O segundo tipo é encontrado também nas grandes editoras. Neste caso, o texto é correto gramaticalmente, mas está ruim esteticamente. Falta “feeling” ao tradutor. Ele sabe escrever, mas não sabe escrever um texto bonito, suave, fluido, quase como um escritor o faria.

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Muitas pessoas têm dificuldade de aceitar que as traduções brasileiras são ruins, e o são pelo simples fato de que não se sabe mais escrever em português por aqui.

Diante disso, vou tentar postar aqui, de vez em quando, pequenas comparações entre traduções brasileiras e portuguesas.

Nesta aqui, de um conto de Flannery O’Connor, vê-se nitidamente a diferença de qualidade do português. Ademais, para quem lê inglês, é possível ver ainda que a tradução lusa, além de ter muito mais qualidade do ponto de vista unicamente da língua portuguesa, também está bastante mais próxima do original que a brasileira.

A tradução brasileira usada aqui é a da Cosac & Naify.

Flannery-O'Connor---O-gerânio-(comparação)

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