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Archive for March, 2016

Britto e o vidro

Apesar de a tradução brasileira de “Arco-íris da gravidade”, de Thomas Pynchon, ser de Paulo Henriques Britto, um dos poucos bons tradutores deste País, encontrei, logo no início do livro, um trecho tão mal traduzido que chega a ser ininteligível se o leitor não tiver um forte poder de dedução. Vejam, na imagem, se são capazes de compreender a parte em que o narrador fala de um vidro. 


Agora vejam a tradução portuguesa do mesmo trecho:

“É tarde demais. A Evacuação continua a decorrer, mas é tudo teatro. Não há luzes dentro dos vagões. Não há luz em lado algum. Acima dele vigas de elevador tão velhas quanto uma rainha de ferro, e vidro algures muito no alto que deixaria passar a luz do dia. Mas é de noite. Ele receia o modo como o vidro cairá — dentro em pouco — será um espectáculo: a queda de um palácio de cristal. Mas caindo em escuridão total, sem uma centelha de luz, somente grande derrocada invisível.”
 

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Assisto de palanque à petistada detonando a Rede Goebbels. Os puxa-sacos são os primeiros a serem hostilizados quando os comunas sobem ao poder, certo? É a lógica dos movimentos comunistas. Só que, como no Brasil tudo é versão pobrinha, aqui os puxa-sacos são hostilizados quando o comunismo começa a dar errado, ou seja, mais uma vez constata-se que brasileiro tem vocação para atirar no próprio pé, e com os esquerdinhas não é diferente. Então, que atirem! A gente fica aqui assistindo, como quem joga Civilization: é só posicionar os bonequinhos e deixar que se matem. Aí, sobe aquela fumacinha vermelha e azul, com cheiro de mortadela defumada. A gente de fode, mas pelo menos se diverte.

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Fui ontem a uma livraria e fiquei feliz de ver a quantidade de livros “conservadores” nas estantes. É realmente uma pequena revolução bibliográfica, o que está em curso no Brasil. Por outro lado, é também a mais nova fase de uma outra revolução, e esta não é nada boa. Trata-se da revolução dos mal alfabetizados, na falta de um nome mais respeitável, científico, sei lá. São pessoas que não sabem escrever direito em sua língua materna, indivíduos a quem falta o domínio básico do idioma, aquele mínimo de formação lingüística que nos permite perceber que uma preposição não se usa com tal verbo, que um substantivo, mesmo sendo sinônimo exato de outro, não cabe na frase porque ninguém jamais o utiliza nem utilizou assim; enfim, tudo aquilo que nos impede de dizer que o “cão aquecido se encontra custoso” em vez de “o cachorro quente está caro”. Claro que este exemplo é hiperbólico. Mas, acreditem, a coisa não está tão longe disso quanto gostaríamos que estivesse.

Por exemplo, um amigo me informa que, na mais nova tradução de Chesterton no Brasil, a Autobiografia, que saiu pela editora Ecclesiae, o tradutor Ronald Robson verteu da seguinte maneira a primeira frase do capítulo XI:

Moro, já há um bom tempo, na cidade de Beaconsfield, no condado de Bucks, a cidade que alguns colonos imaginam ter sido batizada após o Lord Beaconsfield, o político.

Antes de comentar qualquer coisa, transcrevo o original:

I had been living, already for a long time, in the town of Beaconsfield in the County of Bucks; the town which some Colonials imagine to have been named after Lord Beaconsfield the politician.

Percebem a gravidade do problema? Chesterton disse que “estava morando”, ou que “morava”, havia um bom tempo, na tal cidade. O que dizer de um tradutor que erra até o tempo dos verbos ou de um revisor que não conserta um erro desses, caso tenha sido uma distração esporádica?

Mas o pior não é isso. O leitor, por acaso, já ouviu falar de alguém ser batizado “após” alguém – exceto, é claro, após o bebê anterior, em um desses batismos coletivos tão comuns hoje em dia? Veja bem, não se trata de um errinho. A acepção está no dicionário Houaiss:

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E até no Michaelis, que é bem pior:

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Diz-se que uma cidade recebeu seu nome “em homenagem a” fulano, não “após” o coitado, o que é mera tradução literal.

Quando digo essas coisas, posso parecer chato. Podem dizer que estou procurando pêlo em ovo, que é normal esses deslizes etc etc. Pois eu digo que não é normal. Essas coisas simplesmente não acontecem em traduções mais antigas. E não acontecem por um motivo muito simples: as pessoas sabiam escrever antigamente. Em algum momento dos anos setenta, essas pessoas pararam de surgir. Entre os tradutores profissionais de hoje, nas grandes editoras, há indivíduos que sabem escrever minimamente e não cometem erros desse tipo, embora a leitura de traduções lusas me tenha mostrado que estão longe de serem bons tradutores. Entre as editoras menores, porém, a coisa é desesperadora. Alguns amigos, não raro, confessam-me que tiveram de abandonar um ou outro livro que compraram – da Vide Editorial, da Mundo Cristão, da Simonsen (para citar algumas) – e passar ao original, porque o texto simplesmente não parecia estar em português. Isso é muito grave, sobretudo no caso das editoras diretamente inspiradas pelo professor Olavo de Carvalho, que há tantos anos vem apontando justamente o problema da decadência da cultura brasileira, da necessidade de ler literatura, de desenvolver um respeito pela língua portuguesa. Criou-se uma situação em que, antes de comprar um livro, é preciso vasculhar o texto em busca de sinais de má tradução – como a tão freqüente enxurrada de pronomes pessoais (“ele”, “ela”) facilmente ocultáveis. Felizmente, ou infelizmente, estes não tardam a aparecer, poupando-nos o prejuízo financeiro da aquisição, mas deixando-nos com aquele gostinho do quase acesso à tradução de um autor amado.

Pessoalmente, confesso que não compro mais esses livros, embora muito me alegre por estarem ocupando, nas prateleiras das livrarias, o lugar outrora ocupado por lixo esquerdista da pior espécie. Isso não impede, contudo, que eu me entristeça também. É lamentável ver grandes autores, como Chesterton, Hugo de São Vítor, C. S. Lewis (meu Deus! o que são aquelas traduções deste coitado pela Vida Livros!), traduzidos mal e porcamente a dezessete reais a lauda (ou até doze reais, acreditem!), quando o mercado paga entre vinte e cinco e trinta e cinco reais, e por tradutores amadores, sem nenhuma formação na área e que nem escritores são (o que antigamente era o mínimo que se esperava, de um tradutor não profissional, como garantia de que sabia alguma coisa de português).

Reconheço que todas essas pessoas estão muito bem intencionadas e tal, mas para isso há sempre aquele velho ditado: De boas intenções o inferno está cheio.

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