Como tradutor, e também como simples escrevedor, cultivo algumas inimizades gramaticais. Uma delas é ao pronome pessoal de terceira pessoa, o maldito “ele/ eles”, que domina a mente brasileira mais e mais a cada dia que passa. Sempre que vejo um “ele/ eles” em algo que acabo de escrever, seja como tradutor ou não, o dedinho até coça pra cortar a maldita partícula.
 
O resultado disso, infelizmente, é que eu não consigo mais respeitar quase nenhum tradutor brasileiro nesse quesito. Nenhum deles demonstra qualquer apreço por essa “regra” de ocultar o pronome de terceira pessoa quando possível. Seus dedinhos simplesmente não coçam! Em certas passagens, parecem mesmo cultivar o oposto: parecem esforçar-se por “desocultar” todos os pronomes que puderem. É insuportável!
 
A boa notícia é que os portugueses não são assim. Nossos amigos lusos odeiam o pronome pessoal de terceira pessoa tanto quanto eu. Bem, não o odeiam exatamente; eu tampouco o odeio. Odeio-o somente quando é ocultável (aliás, acabo de ocultar um deles, duas palavras atrás, antes do “é”).
 
Senão, vejamos.
 
A seguir, temos o início da tradução portuguesa de “A presença total”, de Louis Lavelle.

 

Captura de tela 2016-06-11 13.10.00

 

Viram que não há uma única ocorrência do pronome “eles” na passagem? Agora vejam o mesmo trecho, na tradução brasileira, da É Realizações.

 

lavelle nougué

 

Pois é.
Advertisements