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Archive for September, 2016

Uma das coisas mais interessantes que o Ronald Robson constata em seu interessantíssimo ensaio do sexto número da Revista Nabuco é que a cordialidade do brasileiro, ao trazer tudo para o pessoal, impede-nos de enxergar a vida como algo eminentemente gerido por essa espécie de burocracia filosófica que a Nova Ordem Mundial quer impor ao mundo. Por aqui, mesmo com toda a lavagem cerebral que a mídia realiza via novelas e jornais, só ainda muito raramente topamos, numa ciclovia quase deserta, com aqueles seres exóticos que passam “buzinando” e reclamando que ali não é lugar de andarmos com o nosso cachorro; ou, no trânsito, com aquele pedestre revoltadinho que nos passa um sabão porque paramos muito em cima da faixa (a filosofia de vida burocrática ignora, por definição, a eventualidade de que possamos não ter visto o pedestre a tempo, ou de que a faixa esteja num local inapropriado; pois tudo para ela é perfeito, tudo funciona otimamente). O brasileiro tem um dom que não é necessariamente ruim. Esse dom, aliás, em tempos de Estado Moderno, é muito mais benéfico que maléfico:
 
“Alguém dirá que arriscado (…) é sofrermos nas mãos de que[m] não respeita o Estado e dele se vale para benefício próprio e malefício nosso. Mas esse risco só ocorre cronicamente numa sociedade em que existe um outro risco, muito mais benéfico, que é aquele de eu e você não darmos a mínima para a existência de Estado algum. Acredito que o que vem ocorrendo no Brasil é uma boa amostra de que, para o brasileiro, o rei sempre esteve nu, e que, se lhe beijamos a mão num momento, não nos é muito custoso chutá-lo porta afora no momento seguinte.”
 
As análises que o ensaísta faz sobre a história do Brasil e sobre as características próprias do brasileiro são complexas, ricas. Transcendem as simplificações, tanto as liberais quanto as esquerdistas, reconhecendo valor até mesmo em obras para as quais muitos conservadores olham torto, como as de Sérgio Buarque de Holanda. Ler o ensaio de Ronald Robson, apesar de todos os problemas sintáticos e gramaticais que o perpassam, deixou-me com vontade de ler um bom, um ótimo livro de história do Brasil e de sociologia do brasileiro, daquele tipo que ainda está por ser escrito sei lá por que aluno do Olavo. Talvez pelo próprio Robson. E deixou-me com vontade, também, de ser seu revisor!
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