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Archive for January, 2017

Ler e amar

Muito importante este artigo. Aplica-se à literatura também. Não adianta ler, ler, ler, se não se aprende a amar o que se lê, do fundo do coração. Como fazer isso? Não sei. Mas, se uns conseguem, é porque deve ser possível. Uma das maneiras de amar é simpatizar, “empatizar”, mesmo com os autores mais alheios à nossa mentalidade. Nunca se deve ler sem se fazer um esforço ENORME para simpatizar com o que o autor está dizendo. Pode parecer difícil, quando se trate de um autor niilista ou anti-clericalista, por exemplo, e o leitor seja um católico fervoroso. Mas, se buscarmos lá no fundo de nós, certamente encontraremos um pouquinho de anti-clericalismo, certamente saberemos enxergar a parcela de verdade que há no que o niilista ateu está dizendo. E é isso o que importa. O resto vem como conseqüência.

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Suponho que seja imensa a galeria de ilustres senhores e senhoras que interpretaram erroneamente a expressão “conhecimento do bem e do mal”, do Gênesis. Seria interessante fazer uma lista. Seria decerto enorme e repleta de celebridades intelectuais e arstísticas – não deste tipo que hoje se espalha por toda parte; não falo de Brunas Surfistinhas, de loirinhas oxigenadas de BBB, de cantores de rock nem nada disso. Refiro a gente do nível de um Eça de Queirós, que no conto “Adão e Eva no Paraíso”, destila seu pretenso saber de cidadão moderno esclarecido, sem desconfiar, sequer, de que está pagando o maior mico ao falar de um Adão que, no Paraíso, vivia aterrorizado por perigosos animais de toda sorte, e que libertou-se de tão execrável condição comendo do fruto da árvore que lhe deu o… saber:
“Pois bem, meus amigos! A todos estes furiosos seres deve o homem a sua carreira triunfal. Sem os sáurios, e os pterodáctilos, e a hiena-espeleia, e o arrepiado terror que espalhavam, e a necessidade de ter, contra o seu ataque, sempre bestial, uma defesa sempre racional — a Terra permaneceria um temeroso Paraíso, onde erraríamos todos, desgrenhados e nus, chupando pela borda dos mares as banhas cruas de monstros naufragados. Ao encolhido medo de Adão se deve a supremacia da sua descendência. Foi o bicho perseguidor que o forçou a subir aos cimos da Humanidade. E bem sabedores das Origens se mostraram os poetas mesopotâmicos do Génesis, nesses versículos subtis em que um animal, e o mais perigoso, a Serpente, leva Adão, por amor de Eva, a colher o fruto do Saber!”
O conto é ótimo. Eça é ótimo. Ainda possuía um conhecimento mais do que razoável da herança de seus antepassados, o que dava ao seu anti-clericalismo um certo quê de realidade. Mas isso, ao que parece, não o impediu de cair nas garras da pseudo-hermenêutica bíblica, tão comum nos dias de hoje. E logo um escritor! que devia ter suficiente domínio da interpretação de texto, para desconfiar da presença de um sentido mais profundo nesse tal “conhecimento do bem e do mal”. Não se trata de conhecimento, ao pé da letra, seu Eça! É pretensão de onipotência! É um querer ser Deus.

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Mais merquior

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Das três funções históricas da arte literária: edificação moral, divertimento, e problematização da vida, a literatura da era contemporânea – a literatura da civilização industrial – cultiva preferencialmente a última. A hipertrofia da visão problematizadora é, desde o romantismo, uma característica fundamental das letras; de tal modo as grandes obras literárias se foram concentrando nesse objetivo, nessa atitude crítica ante a existência, que a edificação e o divertimento se viram quase excluídos da literatura de alta qualidade. De Goethe para cá, os textos predominantemente destinados a inculcar ideias morais estabelecidas, ou a distrair o espírito, situam-se à margem dos valores literários; ou então se confundem, pura e simplesmente, com a subliteratura. No entanto, autores tão importantes quanto Virgílio e Dante, Gil Vicente e Calderón criaram obras máximas dentro de direções fortemente edificantes; Boccaccio e Ariosto fizeram literatura de alto nível sem outra pretensão que o entretenimento; e da obra de Homero – ao mesmo tempo “romance de aventuras” e suma dos mitos que encerravam a educação helênica – pode-se dizer que está regida por uma fusão perfeita do divertir e do edificar.

Mas o que tornava praticável esse embutimento da distração na edificação? Na resposta a essa pergunta se encontra justamente a explicação da hegemonia da função problematizadora na literatura da sociedade moderna. É que o mundo de Homero possuía valores estáveis. Por isso, o próprio divertimento era capaz de atuar como veículo de formação ética. Em substância, o teatro medieval operou a partir de uma base cultural análoga. As sociedades tradicionais conheciam, naturalmente, muitas crises ideológicas e sérios conflitos sociais – mas preservavam, de um ou de outro modo, através das classes e das gerações, uma coesão espiritual que a nossa civilização não mais (ou ainda não?) experimenta, porque não mais oferece a seus filhos uma orientação global da existência unanimemente aceita e partilhada. Não havendo valores estáveis, a literatura, no seu papel de interpretação da vida por meio da palavra, passou a procurá-los: daí ter ela assumido uma visão problematizadora. Para nós, nomes como Goethe ou Hölderlin, Dostoiévski, Kafka ou Fernando Pessoa representam, antes de mais nada, grandiosas tentativas de discutir o sentido da existência; por causa disso é que eles se inscrevem no centro vivo da tradição moderna.

José Guilherme Merquior, em De Anchieta a Euclides.

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