Ler e amar

Muito importante este artigo. Aplica-se à literatura também. Não adianta ler, ler, ler, se não se aprende a amar o que se lê, do fundo do coração. Como fazer isso? Não sei. Mas, se uns conseguem, é porque deve ser possível. Uma das maneiras de amar é simpatizar, “empatizar”, mesmo com os autores mais alheios à nossa mentalidade. Nunca se deve ler sem se fazer um esforço ENORME para simpatizar com o que o autor está dizendo. Pode parecer difícil, quando se trate de um autor niilista ou anti-clericalista, por exemplo, e o leitor seja um católico fervoroso. Mas, se buscarmos lá no fundo de nós, certamente encontraremos um pouquinho de anti-clericalismo, certamente saberemos enxergar a parcela de verdade que há no que o niilista ateu está dizendo. E é isso o que importa. O resto vem como conseqüência.
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Eça e o conhecimento do bem e do mal

Suponho que seja imensa a galeria de ilustres senhores e senhoras que interpretaram erroneamente a expressão “conhecimento do bem e do mal”, do Gênesis. Seria interessante fazer uma lista. Seria decerto enorme e repleta de celebridades intelectuais e arstísticas – não deste tipo que hoje se espalha por toda parte; não falo de Brunas Surfistinhas, de loirinhas oxigenadas de BBB, de cantores de rock nem nada disso. Refiro a gente do nível de um Eça de Queirós, que no conto “Adão e Eva no Paraíso”, destila seu pretenso saber de cidadão moderno esclarecido, sem desconfiar, sequer, de que está pagando o maior mico ao falar de um Adão que, no Paraíso, vivia aterrorizado por perigosos animais de toda sorte, e que libertou-se de tão execrável condição comendo do fruto da árvore que lhe deu o… saber:
“Pois bem, meus amigos! A todos estes furiosos seres deve o homem a sua carreira triunfal. Sem os sáurios, e os pterodáctilos, e a hiena-espeleia, e o arrepiado terror que espalhavam, e a necessidade de ter, contra o seu ataque, sempre bestial, uma defesa sempre racional — a Terra permaneceria um temeroso Paraíso, onde erraríamos todos, desgrenhados e nus, chupando pela borda dos mares as banhas cruas de monstros naufragados. Ao encolhido medo de Adão se deve a supremacia da sua descendência. Foi o bicho perseguidor que o forçou a subir aos cimos da Humanidade. E bem sabedores das Origens se mostraram os poetas mesopotâmicos do Génesis, nesses versículos subtis em que um animal, e o mais perigoso, a Serpente, leva Adão, por amor de Eva, a colher o fruto do Saber!”
O conto é ótimo. Eça é ótimo. Ainda possuía um conhecimento mais do que razoável da herança de seus antepassados, o que dava ao seu anti-clericalismo um certo quê de realidade. Mas isso, ao que parece, não o impediu de cair nas garras da pseudo-hermenêutica bíblica, tão comum nos dias de hoje. E logo um escritor! que devia ter suficiente domínio da interpretação de texto, para desconfiar da presença de um sentido mais profundo nesse tal “conhecimento do bem e do mal”. Não se trata de conhecimento, ao pé da letra, seu Eça! É pretensão de onipotência! É um querer ser Deus.