Eça e o conhecimento do bem e do mal

Suponho que seja imensa a galeria de ilustres senhores e senhoras que interpretaram erroneamente a expressão “conhecimento do bem e do mal”, do Gênesis. Seria interessante fazer uma lista. Seria decerto enorme e repleta de celebridades intelectuais e arstísticas – não deste tipo que hoje se espalha por toda parte; não falo de Brunas Surfistinhas, de loirinhas oxigenadas de BBB, de cantores de rock nem nada disso. Refiro a gente do nível de um Eça de Queirós, que no conto “Adão e Eva no Paraíso”, destila seu pretenso saber de cidadão moderno esclarecido, sem desconfiar, sequer, de que está pagando o maior mico ao falar de um Adão que, no Paraíso, vivia aterrorizado por perigosos animais de toda sorte, e que libertou-se de tão execrável condição comendo do fruto da árvore que lhe deu o… saber:
“Pois bem, meus amigos! A todos estes furiosos seres deve o homem a sua carreira triunfal. Sem os sáurios, e os pterodáctilos, e a hiena-espeleia, e o arrepiado terror que espalhavam, e a necessidade de ter, contra o seu ataque, sempre bestial, uma defesa sempre racional — a Terra permaneceria um temeroso Paraíso, onde erraríamos todos, desgrenhados e nus, chupando pela borda dos mares as banhas cruas de monstros naufragados. Ao encolhido medo de Adão se deve a supremacia da sua descendência. Foi o bicho perseguidor que o forçou a subir aos cimos da Humanidade. E bem sabedores das Origens se mostraram os poetas mesopotâmicos do Génesis, nesses versículos subtis em que um animal, e o mais perigoso, a Serpente, leva Adão, por amor de Eva, a colher o fruto do Saber!”
O conto é ótimo. Eça é ótimo. Ainda possuía um conhecimento mais do que razoável da herança de seus antepassados, o que dava ao seu anti-clericalismo um certo quê de realidade. Mas isso, ao que parece, não o impediu de cair nas garras da pseudo-hermenêutica bíblica, tão comum nos dias de hoje. E logo um escritor! que devia ter suficiente domínio da interpretação de texto, para desconfiar da presença de um sentido mais profundo nesse tal “conhecimento do bem e do mal”. Não se trata de conhecimento, ao pé da letra, seu Eça! É pretensão de onipotência! É um querer ser Deus.

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