Não pode denunciar?

Parece que virou modinha posicionar-se contra a iniciativa da Ana Campagnolo, deputada estadual eleita em SC, de pedir aos alunos que denunciem os professores esquerdistas. Afirma-se que isso criará um cenário subjetivista e que, daqui a pouco, alunos ignorantes denunciarão qualquer coisa. A acusação até faz sentido. Ninguém quer denuncismo e o mais importante é melhorar a qualidade do ensino e a formação dos professores. Por outro lado, as coisas que muitos professores andam dizendo em sala de aula são tão escabrosas que eu vejo a iniciativa das denúncias como uma espécie de operação de emergência a ser posta em prática ENQUANTO não se consegue resolver os problemas mais, digamos, estruturais e definitivos. A preocupação de muitos “analistas”, sobretudo na Internet, com a liberdade dos professores me parece muito mais fruto da atual obsessão do brasileiro com uma idéia meio metafísica de “democracia” do que de qualquer outra coisa – o que os leva, aliás, a atribuir à iniciativa da deputada muito mais força e potencial do que possui.

Pequena radiografia de uma fake news “oficial”

Observação inicial: Chamo de fake news “oficial” aquela publicada pela velha mídia.

Vejamos, em três etapas, como um jornalista mente através do acúmulo de meias-verdades.

Passo 1: Valendo-se da ignorância da crase, típica no Brasil de hoje, o jornalista faz parecer, na chamada, que se trata da esposa (“mulher”) do acusado.

Captura de tela 2018-10-26 10.12.34

 

Passo 2: No título da matéria, já não se fala de “mulher”. Assim, já se vai dissipando a palavra da memória do leitor.

Captura de tela 2018-10-26 10.12.25

 

Passo 3: Apresenta-se, no texto, o “fato” verdadeiro, a saber, que existe uma denúncia feita por uma JORNALISTA, ou seja, uma pessoa que, por sua profissão, já se encaixa numa posição de suspeição com relação ao acusado, já que todos sabem que os jornalistas em geral não gostam dele. Além disso, trata-se de uma acusação sem provas que não o testemunho da própria acusadora, com quem o deputado “teria tido um relacionamento”.

Captura de tela 2018-10-26 10.12.06.png

Compreendem a sutileza da coisa? Você abre o jornal e a notícia fica sempre a três passos de distância. Dois deles servem de isca anunciando meias-verdades e só no último é que vem a verdade, quando vem.

A cafajestização por meio de palavrões

Confesso que até eu me surpreendi com a criatividade intelectual do Caetano. O discurso que ele gaguejou depois do Mano Brown é de uma lógica sui generis. Segundo o cantor, “filósofos que falam palavrão” hipnotizaram e imbecilizaram durante décadas a população brasileira, criando assim uma cultura do cafajeste (foi a “cafajestização” da sociedade). Os brasileiros, então, passaram a crer-se cafajestes e, conseqüentemente, a acreditar que precisam ser representados por um cafajeste na presidência. [Pausa para gargalhadas.]
O raciocínio possui, confesso, uma certa relação com o que aconteceu de fato – uma relação analógica, eu diria; meio que por oposição, meio que por simbologia, meio que por psicologia. Caetano tem, ao menos, o mérito de ter tentado entender “com sua própria cabeça” o que aconteceu, ao contrário dos petistas. Pena que sua cabeça é ruinzinha que só!

Do isentonismo

O isentonismo funciona assim: a pessoa fala um monte de merda forçando a barra para ser lindinha, e então começa a perder seguidores e fica só com seguidores merdinhas. Esses seguidores merdinhas se dividem em isentões como ela e em extremistas da causa oposta à qual ela tende (todo isentão tende a uma causa, geralmente a da minoria quantitativa; por exemplo, o isentão eleitoral de agora tende ao anti-bolsonarismo). Os extremistas da causa oposta (sempre mais insistentes com os isentões, pois querem convertê-los), então, falam merdas fenomenais, até de cunho homicida, e com isso alimentam o isentonismo da pessoa em questão. Ao fim e ao cabo, de tanto alimentar-se de isentonismo, a pessoa acaba virando opositora da causa em relação à qual se pretendia isenta.

Dou o exemplo de uma ex-amiga: era isentona em relação ao Olavo. Foi perdendo seguidores normais e ficando somente com os anti-olavetes e os que nem sabem quem é o Olavo. Os seguidores anti-olavetes lhe foram alimentando de catolicismo farisaico e de anti-olavismo; e os outros, de likes. Ela então começou a falar merda sobre o Olavo, despertando assim uma certa indignação nos poucos seguidores favoráveis ao Olavo que ainda possuía. Estes se manifestaram provocando-lhe mais um pouco o orgulho farisaico e, assim, radicalizando um pouco mais a fala dela. Depois se mandaram. Chegaram então as eleições e, logicamente, entre seus seguidores quase só havia anti-bolsonaristas e isentões. O mesmo processo ocorreu – agora no campo do bolsonarismo/anti-bolsonarismo – e, ao final, ela terminou virando anti-bolsonarista. E seu anti-bolsonarismo é alimentado por prints de bolsonaristas idiotas (do tipo que fala que quer matar petistas), já que os bolsonaristas normais já foram todos embora de seu perfil.

E assim caminha a humanidade isentona: rumo ao extremismo anti-direita – o qual, todos bem sabemos, tende infinitamente ao esquerdismo puro e simples, ainda que sem nunca “tocá-lo”, para usar uma metáfora matemática.