Brasília

Olha, não amo Brasília, mas a visão que a maioria das pessoas tem daqui é de uma meia dúzia de prédios ao lado do congresso e políticos perambulando por toda a cidade a ponto de você esbarrar com eles o tempo todo. Meus filhos, vocês realmente acham que esse pessoal se mistura com o dia a dia da cidade? Esse povo é como um bando de ETs. Eles pousam aqui, se metem em seus gabinetes e naqueles restaurantes caros (de preferência bem fechados) e depois voltam para seus discos voadores à noite. O que a gente vê no dia a dia é só o segundo escalão, a classe média que gasta dez vezes mais do que tem porque têm acesso ao crédito consignado, através do qual o Estado faz parecer que a população aqui é toda rica, quando na verdade não passa de um bando de gente endividada por mais 30 ou 40 anos porque “comprou” seu apartamento e seus carros novos com o tal crédito.

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Conhece-te a ti mesmo


Quantos livros dá para ler de uma vez? Quão desorganizada pode ser uma vida de estudos? Não sei responder a essas perguntas. Só sei que, fora todos esses livros da coluna aí da direita, ainda estou lendo mais uns três.

Mas, como não faz sentido ficar debatendo sobre a bagunça mental de quem quer que seja (muito menos a minha própria), quero dar uma dica e fazer uma reflexão.

A dica: não leiam a Ilíada e a Odisséia de Homero na edição da Ediouro (trad. de Carlos Alberto Nunes). Por anos tive medo desses livros, pois sempre que dava uma passada de olhos num trecho, meus neurônios se contorciam para que eu soubesse do que se estava falando naqueles versos invertidos e reinvertidos até a exaustão. Depois descobri, com a alegria contida e sóbria daquele menininho do Matrix (“instead realize the truth: there is no spoon”), que a edição inglesa, que de tantos leitores fez a felicidade, tem uma outra a sua altura, ou ainda mais alta: esta aqui e esta aqui. E ainda são jeitozinhas de manusear!

A reflexão é a seguinte. Donald Kagan, na aula 1, comenta as duas frases que apareciam na entrada do templo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo” e “Nada em excesso”. Segundo ele, as duas frases juntas significavam algo como: “(…) conhece tuas próprias limitações como mortal falível e então pratique a moderação porque não és divino, mas mortal”. Bem, eu, a partir das coisas que aprendi num certo curso que venho fazendo e de minhas humildes observações existenciais e experiências de vida, ouso tirar uma conclusão bem diversa (embora concorde que a conclusão citada também cabe). Afinal, duas frases assim isoladas podem significar muitas, mas muitas coisas mesmo. Então, continuando, gosto de pensar que as frases significavam o seguinte. Conhece-te a ti mesmo, mas não em excesso. Sabe aquelas pessoas que fazem terapia a vida inteira e terminam mais doidas do que eram antes? Pois é. Os gregos preferiam navegar.

Ao vivo. Mas o quê?

Meu iPhone agora transmite vídeo ao vivo pela Internet, com um aplicativinho chamado Qik. Fiquei eufórico com a novidade. Após alguns segundos, porém, veio a pergunta: vou transmitir ao vivo, mas o quê? Eu trabalhando? Eu brincando com a cachorrinha? Eu imprimindo textos? Eu almoçando? Eu viajando pelo mundo daqui a 20 anos? E quem vai querer assistir?

Bem, de todo modo, a telinha está aí do lado direito. Quem sabe um dia desses vocês não me pegam ao vivo bebendo um copo de smoothie? Isso seria, uau!, sensacional.

Com melancolia, sem melancolia

Estava triste, melancólico porque vou me mudar de cidade. Uma coisa que me deixa muito triste é não passear mais com minha cadelinha por todos aqueles pontos da calçada do meu bairro que, depois de 2 anos, cheguei a decorar. Tenho-os todos guardados na minha memória e adquiri uma certa afeição pelos canteiros de plantas onde ela faz xixi e cocô (sinto-me vexado por dizer isso, mas o fato é que é verdade) e pelos outros cãezinhos que ela conhece, como aquele “pretinho” que a cumprimenta todos os dias por detrás de uma grade.

Logo, porém, que ouvi o vizinho de cima a escutar “psy-trance” como um louco drogado de boate em pleno meio-dia, alegrei-me.

Sinceramente, não sei amar o próximo.