Amontoado de ideias

A pessoa descobre que não gosta de nenhuma das características de sua profissão, mas acha que quem deve mudar é esta e não ela. Tocante.

Mas, deixando o sarcasmo de lado; infelizmente, no Brasil, profissão e vocação geralmente têm de ser coisas diferentes. As pessoas, no entanto, não aguentam admitir isso. Preferem se enganar porque é muito difícil lidar com uma desilusão que, no mundo moderno, afeta quase a totalidade de sua vida. Não está certo uma pessoa extrair da profissão 90% do sentido da vida. Tudo bem que o trabalho é uma das mais importantes esferas da vida humana, mas há vários tipos de trabalho, não só o profissional etc etc.

Esta é uma discussão interminável, que passa inclusive pelo curioso fato (que eu estava discutindo com amigos outro dia) de que o brasileiro geralmente não tem hobby – bem, pelo menos não um que seja digno do nome: cerveja e futebol não valem.

Antes eu dizia que não gostava de trabalhar. Hoje digo que não considero minha profissão como minha vocação. Faltam-me respostas a esse problema, que é um de meus maiores conflitos. Tranquilizo-me, entretanto, ao ver que a maioria das pessoas que o consideram resolvido em sua vida na verdade está se enganando.

Aí então você diz: “Uma pessoa pode passar o resto da vida se enganando e ser feliz assim.” É verdade, mas essa pessoa será feliz como um cão é feliz, não como um ser humano o é (leia esse livrinho de filosofia moral do Eric Weil que está na coluna aí do lado e você entenderá do que falo). Estará tudo bem para ela, mas não está para mim. Ignorance is bliss, mas até quando? Só até você ter um lampejo, por acaso, certo dia, como que num passe de mágica, e acordar do seu sonho de glamour profissional.

Enfim, só sei que a única forma de se livrar do trabalho é aposentando-se o mais rápido possível. Estou trabalhando nesse sentido!

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Romântico ou moderno?

Sinto uma estranha atração por essa sonata de Prokofiev. Parece-me ambígua. Ao mesmo tempo romântica e fria. O violoncelo chora, mas chora de uma forma grave, séria, como um advogado emotivo – algo que não se espera de um advogado. Há ainda momentos “divertidos”, quase engraçados, que também é algo que não se espera de um advogado.

 

 

 

 

Transpiração

Harold Schonberg (do post anterior) diz de Chopin: “Sua música, apesar de soar sempre lírica e espontânea, é resultado de muito trabalho e julgamento”.

Concordo plenamente, e acrescento que isso vale para todas as artes, todas as obras, tudo que o homem faz, tudo o que SE faz. Quanto mais trabalhado, mais perfeito. Quanto mais perfeito, mais aparentemente espontâneo. Vide a natureza, obra de Deus!

Post mortem

“Posto aqui porque recuso-me a morrer”, diz meu blogue. Quero companhia escrita mas não encontro – só política. Lindos dias quando abria meu navegador e saía clicando em cada blogue, cada texto: filosofia, arte, cotidiano, humor. Hoje são só 140 caracteres, muitos links, pouco texto. Até este que vos fala perdeu a vontade de escrever, viciou-se na brevidade da expressão, quase considerando-a uma virtude. De certo que pode ser, mas em certas ocasiões apenas. Nas outras é preciso dizer, falar, verbalizar, derramar essas coisas tão belas chamadas palavras.

A Internet hoje é das redes sociais. Todo mundo juntinho sem estar. Todo mundo se comunicando sem escrever nem falar. Minha opinião é um vídeo do Youtube. A de fulano é uma foto do Flickr. E assim caminha a humanidade em direção à mudez disfarçada de interatividade.

Então escrevo aqui, mesmo que pouco, mesmo que quase nada de interessante. Porque minha vontade é não me perder num mar de links. Minha vontade é conversar, ainda que somente comigo mesmo, manter-me consciente de minha presença, não deixa-la diluir-se em alguma comunidade de bits. Estou nestas, mas estou aqui também. Que fique bem claro!

O descaminho

 

À minha frente está o passado. Sinto-me errado e ao mesmo tempo certo. Meus projetos mais estimados são supostos e são projetos de voltar. Quero voltar para todas as cidades onde morei e até para onde nunca morei. No limite quero voltar para onde nunca estive, simplesmente por saber que lá se vive, se sorri, se é feliz.

Sinto que faço tudo errado porque o certo seria voltar e fazer de novo direito. O certo seria viver todos aqueles momentos de novo porque foram ótimos e eu mesmo assim fugi deles e vim para outro lugar, para outra coisa.

Como ser feliz aqui e agora da mesma maneira que fui lá e ontem? Se as comparações sempre pendem para alhures, algo de errado há. Se as coisas novas só atraem quando exalam um suave aroma de nostalgia e regresso, que se deve fazer?

Um frio no ventre, o peito rijo, as mãos hirtas, penso em tudo que falta e encontro pedaços na memória. Por onde passei fui catando felicidades, mas por que sempre me sinto preso num lugar a que não pertence nenhuma delas? Levá-las comigo? Com certeza. Única certeza.