Hoje em dia

Estive lendo um conto de Tolstói, Dois hussardos, e uma coisa chamou-me a atenção. Ao longo do conto, Tolstói sugere várias vezes uma oposição de épocas, mas neste trecho abaixo, mais ao final da história, sugere-se uma relação mais complexa entre as épocas do que a simples oposição até então reafirmada. Sugere-se que, no passado, embora os homens fossem mais rudes, eram mais cavalheiros e éticos; enquanto no presente, embora sejam mais civilizados e externamente corteses, são menos cavalheiros e mais corruptos. Isso se chama hipocrisia. “Hoje em dia” as pessoas são mais civilizadas e mais hipócritas: civilizadamente hipócritas.

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A maravilha da alegoria

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Na resenha de um dos livros desta magnífica coleção na Amazon, um leitor reclamava que os trechos dos Santos Padres escolhidos eram sempre alegóricos e nunca doutrinais. Bem, isso não é verdade. Mesmo que fosse, porém, uma alegoria de Santo Agostinho, por exemplo, vale mais que mil teologias doutrinais modernas. Quantas vezes já me maravilhei com as analogias que encontrei nas páginas desses volumes, como quem encontra um tio que não via há tempos e ouve dele frases que dizem mais sobre a realidade do que teorias abstratas de filósofos lunáticos!

E olha que só tenho 5 volumes da coleção… Como se diz naquela musiquinha da novela “Salve Jorge” (lamento pela desprezível referência): “…quanta coisa boa a vida tem pra te dar!”

Sertillanges

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Praticando-se a verdade que já se sabe, passa-se a merecer aquela que se ignora. Passa-se a merecê-la na visão de Deus e também por meio de um mérito que já é um autocoroamento; uma vez que todas as verdades estão interligadas, e a homenagem prestada ao fato sendo a mais decisiva de todas, quando nós a prestamos à verdade da vida, nós nos aproximamos das luzes soberanas e do que delas depende. Basta eu embarcar no afluente e chegarei ao rio, e daí ao mar.

Cartas de Iwo Jima

Um soldado relata a um colega que está ali naquela ilha para morrer porque desrespeitou a ordem de matar um cão inocente que, simplesmente por latir, irritou seu superior. O soldado não conseguiu matar o cão na frente da mãe e de duas crianças.

A resposta do colega a ele: “Não fique triste. Pelo menos agora só o seu inimigo te odeia.”

Conhece-te a ti mesmo


Quantos livros dá para ler de uma vez? Quão desorganizada pode ser uma vida de estudos? Não sei responder a essas perguntas. Só sei que, fora todos esses livros da coluna aí da direita, ainda estou lendo mais uns três.

Mas, como não faz sentido ficar debatendo sobre a bagunça mental de quem quer que seja (muito menos a minha própria), quero dar uma dica e fazer uma reflexão.

A dica: não leiam a Ilíada e a Odisséia de Homero na edição da Ediouro (trad. de Carlos Alberto Nunes). Por anos tive medo desses livros, pois sempre que dava uma passada de olhos num trecho, meus neurônios se contorciam para que eu soubesse do que se estava falando naqueles versos invertidos e reinvertidos até a exaustão. Depois descobri, com a alegria contida e sóbria daquele menininho do Matrix (“instead realize the truth: there is no spoon”), que a edição inglesa, que de tantos leitores fez a felicidade, tem uma outra a sua altura, ou ainda mais alta: esta aqui e esta aqui. E ainda são jeitozinhas de manusear!

A reflexão é a seguinte. Donald Kagan, na aula 1, comenta as duas frases que apareciam na entrada do templo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo” e “Nada em excesso”. Segundo ele, as duas frases juntas significavam algo como: “(…) conhece tuas próprias limitações como mortal falível e então pratique a moderação porque não és divino, mas mortal”. Bem, eu, a partir das coisas que aprendi num certo curso que venho fazendo e de minhas humildes observações existenciais e experiências de vida, ouso tirar uma conclusão bem diversa (embora concorde que a conclusão citada também cabe). Afinal, duas frases assim isoladas podem significar muitas, mas muitas coisas mesmo. Então, continuando, gosto de pensar que as frases significavam o seguinte. Conhece-te a ti mesmo, mas não em excesso. Sabe aquelas pessoas que fazem terapia a vida inteira e terminam mais doidas do que eram antes? Pois é. Os gregos preferiam navegar.