Obra-prima

Uma obra-prima de Olavo Bilac. Repare no jogo de plural e singular entre as rimas. E o conteúdo? Plenitude, crueldade, gratidão, desespero, esperança.

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Transpiração

Harold Schonberg (do post anterior) diz de Chopin: “Sua música, apesar de soar sempre lírica e espontânea, é resultado de muito trabalho e julgamento”.

Concordo plenamente, e acrescento que isso vale para todas as artes, todas as obras, tudo que o homem faz, tudo o que SE faz. Quanto mais trabalhado, mais perfeito. Quanto mais perfeito, mais aparentemente espontâneo. Vide a natureza, obra de Deus!

Um gostinho de Proust

A ignorância crônica impede-me de afirmar se Proust melhora no volume 5 de sua grande obra, ou se é a tradução da edição da Globo, que a partir desse volume não é mais de Mario Quintana (não que eu tenha algo contra este), é que melhorou. Arrisco-me nessa última hipótese, mas com certo cuidado e receio.

De qualquer forma, aqui vão umas maravilhazinhas.

O esnobismo é uma doença grave da alma, mas localizada, e não a estraga por completo.

Assino embaixo. Minh’alma esnobe vai muito bem, obrigado.

Mamãe me escrevia: “A sra. Sazerat nos deus um desses almoços de que ela possui o segredo e que, como diria tua pobre avó, citando Mme. de Sevigné, nos tiram da solidão sem nos impor a sociedade.”

São os almoços aqui em casa quando recebemos a visita de algum casal de amigos! Dá aquela sensação boa de companhia sem que tenhamos de nos meter em algum restaurante ou bar cheio de gente.

O sorriso propõe mais amizade; mas os aneizinhos envernizados dos cabelos em flor, mais parentes da carne, de que parecem a transposição em pequeninas ondas, captam melhor o desejo.

Esta aí é a minha preferida. Mas, por motivos óbvios, “prefiro não comentar”.

Da sensação de aconchego

A sensação de aconchego, o sentir-se confortável em um lugar, sobretudo um lugar indoor, a despeito do possível isolacionismo que a prática pode alimentar caso se torne habitual, é uma das que mais me agradam nesta vida. Nos momentos em que me encontro sozinho dentro de minha casa, de preferência à noite ou em dias de céu nublado, nos quais se torna indispensável o acender de uma luz em pleno meio dia para que se enxergue alguma coisa, é como se eu houvesse atingido algum tipo de plenitude suave e tranqüila, como naqueles momentos em que se está a caminhar por uma estrada de terra sob a luz de um Sol intenso e, de repente, eis que surge a sombra de uma árvore, embaixo da qual sentar-se torna-se um ato quase obrigatório. A vontade que nos vem em momentos assim é a de prolongá-los indefinidamente, de modo a esticar a duração de nossa felicidade e de nossa satisfação, o que supostamente nos eximirá de ter que desejar qualquer outra coisa da vida senão aquela serenidade mesma que acabamos de atingir e que observamos no ambiente à nossa volta. Acontece que essa serenidade, aparentemente eterna e inquebrantável, transforma-se automaticamente numa impossibilidade, às menores perturbações que ocorram e que a transformem, sucessivamente, em serenidade parcial e, depois, em agitação, ou mesmo apenas ausência de tranqüilidade – visto que a ausência de tranqüilidade e a agitação não são, de maneira alguma, a mesma coisa. Quando ocorre a quebra da sensação de aconchego, esse fenômeno, muita vez, não parece ser causado por nada que poderíamos ter evitado; e, ainda assim, lamentamos e até nos sentimos culpados por não ter conseguido evitá-lo, ou culpamos outra pessoa e sentimos raiva dela por ter-nos desse modo perturbado a nossa paz.

Assim é que, no desenrolar dos dias de nossa vida, momentos assim vão-se sucedendo um ao outro aos borbotões e, de cada vez que ocorrem, primeiro ficamos felizes – devido à tranqüilidade que experimentamos e que nos parece pôr em contato com uma parte de nós que não costumamos enxergar normalmente – e depois nos entristecemos, e até nos angustiamos, por não poder prolongar sua duração por mais que alguns minutos ou, se formos afortunados, algumas horas – até dias, se tivermos uma sorte que poucos têm! O curioso é que, à medida que vamos envelhecendo, nossa necessidade desses momentos, salvo se formos acometidos daquelas doenças do espírito que transformam nas pessoas aquilo que nelas deveria ser natural, e que as torna, por exemplo, ávidas de ação na velhice ou sedentas de tranqüilidade na infância, aumenta a cada dia que passa; até que, naturalmente, definhamos e morremos, geralmente quase desejando que isso aconteça, como um certo estudioso alemão traduziu acertadamente através de um conceito chamado “desejo de morte”, ou algo assim.

[Este pequeno texto, escrevi-o como parte de uma série de exercícios de imitação de estilos literários que realizarei por recomendação do professor Olavo de Carvalho, no Curso Online de Filosofia. Aqui, procuro imitar especificamente o estilo de Marcel Proust. As observações que faço, entretanto, são a partir de experiências e sensações minhas mesmo. São, portanto, reflexões sinceras, embora o estilo seja mimetizado. Isso, aliás, está me ensinando muito. Estou começando a perceber que determinados estilos literários são mais propícios para descrever certas experiências, e que escrever seguindo um certo estilo até nos estimula a explorar mais a fundo certas sensações que registramos na memória, mas que estavam, por assim dizer, perdidas ou em estado latente, esperando para serem resgatadas e transmitidas a outras pessoas.]

Uma data especial

Ontem fez dez anos que eu e minha musa estamos juntos. Ficamos noivos também ontem; e, em homenagem à ela, escrevi este poema.

Noivos

A imagem insistente do azul simples, do branco
e das sandálias de plástico da juventude,
o sopro tranqüilo do primeiro beijo, brando
e cálido como a corrente a que o mar acode

para chegar à infinita praia do presente
constroem dia a dia uma história que é quimera
e ainda outra que não se sabe nem se sente,
que é apenas linda à medida que se desvela.

Esta história, que traz o amor aos cantos e leva
a canção embora de um rumo a outro, tem pressa
como as vãs cidades insones, mas já pressente

um desejo de terra firme, de cantar essa
música em outro tom; cansou-se do som inerte
que passa, e quer dançar no fogo da tradição.

Quer cingir de anéis essa união de fogo e terra.