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Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Short Fiction 00001

Introduziu-se uma pausa no que estava fazendo, e durou tempo o bastante para que ele pusesse em questão todo o sentido da vida. Isso vinha acontecendo com cada vez mais freqüência, juntamente com um sensível aumento das horas diárias de sono. Era quase como se dormir fizesse mais sentido que estar acordado, neste mundo suspenso em que vivia, pacato, num idílio cerceado pela incerteza de um futuro que nem lhe importava, mas que se anunciava, de todo modo. Rezar o terço e dormir. Sonhar com a morte? Qual nada! Sonhava mil coisas, aventuras desconexas recheadas de símbolos enganadores. E acordava no outro dia cheio de uma esperança sóbria, burguesa. Enxergava, no dia que começava, todo um conjunto de oportunidades de fazer pequenas coisas pouco planejadas, dessas que são as que mais prazer nos proporcionam porque sabemos que um planejar demasiado é sinal de falta de fé na Providência. Mas será mesmo?

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Ler e amar

Muito importante este artigo. Aplica-se à literatura também. Não adianta ler, ler, ler, se não se aprende a amar o que se lê, do fundo do coração. Como fazer isso? Não sei. Mas, se uns conseguem, é porque deve ser possível. Uma das maneiras de amar é simpatizar, “empatizar”, mesmo com os autores mais alheios à nossa mentalidade. Nunca se deve ler sem se fazer um esforço ENORME para simpatizar com o que o autor está dizendo. Pode parecer difícil, quando se trate de um autor niilista ou anti-clericalista, por exemplo, e o leitor seja um católico fervoroso. Mas, se buscarmos lá no fundo de nós, certamente encontraremos um pouquinho de anti-clericalismo, certamente saberemos enxergar a parcela de verdade que há no que o niilista ateu está dizendo. E é isso o que importa. O resto vem como conseqüência.

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Suponho que seja imensa a galeria de ilustres senhores e senhoras que interpretaram erroneamente a expressão “conhecimento do bem e do mal”, do Gênesis. Seria interessante fazer uma lista. Seria decerto enorme e repleta de celebridades intelectuais e arstísticas – não deste tipo que hoje se espalha por toda parte; não falo de Brunas Surfistinhas, de loirinhas oxigenadas de BBB, de cantores de rock nem nada disso. Refiro a gente do nível de um Eça de Queirós, que no conto “Adão e Eva no Paraíso”, destila seu pretenso saber de cidadão moderno esclarecido, sem desconfiar, sequer, de que está pagando o maior mico ao falar de um Adão que, no Paraíso, vivia aterrorizado por perigosos animais de toda sorte, e que libertou-se de tão execrável condição comendo do fruto da árvore que lhe deu o… saber:
“Pois bem, meus amigos! A todos estes furiosos seres deve o homem a sua carreira triunfal. Sem os sáurios, e os pterodáctilos, e a hiena-espeleia, e o arrepiado terror que espalhavam, e a necessidade de ter, contra o seu ataque, sempre bestial, uma defesa sempre racional — a Terra permaneceria um temeroso Paraíso, onde erraríamos todos, desgrenhados e nus, chupando pela borda dos mares as banhas cruas de monstros naufragados. Ao encolhido medo de Adão se deve a supremacia da sua descendência. Foi o bicho perseguidor que o forçou a subir aos cimos da Humanidade. E bem sabedores das Origens se mostraram os poetas mesopotâmicos do Génesis, nesses versículos subtis em que um animal, e o mais perigoso, a Serpente, leva Adão, por amor de Eva, a colher o fruto do Saber!”
O conto é ótimo. Eça é ótimo. Ainda possuía um conhecimento mais do que razoável da herança de seus antepassados, o que dava ao seu anti-clericalismo um certo quê de realidade. Mas isso, ao que parece, não o impediu de cair nas garras da pseudo-hermenêutica bíblica, tão comum nos dias de hoje. E logo um escritor! que devia ter suficiente domínio da interpretação de texto, para desconfiar da presença de um sentido mais profundo nesse tal “conhecimento do bem e do mal”. Não se trata de conhecimento, ao pé da letra, seu Eça! É pretensão de onipotência! É um querer ser Deus.

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Mais merquior

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Das três funções históricas da arte literária: edificação moral, divertimento, e problematização da vida, a literatura da era contemporânea – a literatura da civilização industrial – cultiva preferencialmente a última. A hipertrofia da visão problematizadora é, desde o romantismo, uma característica fundamental das letras; de tal modo as grandes obras literárias se foram concentrando nesse objetivo, nessa atitude crítica ante a existência, que a edificação e o divertimento se viram quase excluídos da literatura de alta qualidade. De Goethe para cá, os textos predominantemente destinados a inculcar ideias morais estabelecidas, ou a distrair o espírito, situam-se à margem dos valores literários; ou então se confundem, pura e simplesmente, com a subliteratura. No entanto, autores tão importantes quanto Virgílio e Dante, Gil Vicente e Calderón criaram obras máximas dentro de direções fortemente edificantes; Boccaccio e Ariosto fizeram literatura de alto nível sem outra pretensão que o entretenimento; e da obra de Homero – ao mesmo tempo “romance de aventuras” e suma dos mitos que encerravam a educação helênica – pode-se dizer que está regida por uma fusão perfeita do divertir e do edificar.

Mas o que tornava praticável esse embutimento da distração na edificação? Na resposta a essa pergunta se encontra justamente a explicação da hegemonia da função problematizadora na literatura da sociedade moderna. É que o mundo de Homero possuía valores estáveis. Por isso, o próprio divertimento era capaz de atuar como veículo de formação ética. Em substância, o teatro medieval operou a partir de uma base cultural análoga. As sociedades tradicionais conheciam, naturalmente, muitas crises ideológicas e sérios conflitos sociais – mas preservavam, de um ou de outro modo, através das classes e das gerações, uma coesão espiritual que a nossa civilização não mais (ou ainda não?) experimenta, porque não mais oferece a seus filhos uma orientação global da existência unanimemente aceita e partilhada. Não havendo valores estáveis, a literatura, no seu papel de interpretação da vida por meio da palavra, passou a procurá-los: daí ter ela assumido uma visão problematizadora. Para nós, nomes como Goethe ou Hölderlin, Dostoiévski, Kafka ou Fernando Pessoa representam, antes de mais nada, grandiosas tentativas de discutir o sentido da existência; por causa disso é que eles se inscrevem no centro vivo da tradição moderna.

José Guilherme Merquior, em De Anchieta a Euclides.

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Sim ou não

As cinco perguntas de tipo “sim ou não” que os cardeais fizeram ao Papa, principalmente a segunda, de tom quase irônico, são um verdadeiro tapa na cara do Vaticano II e sua linguagem repleta de “possibilidades hermenêuticas”:

1) Se adúlteros podem receber a Sagrada Comunhão.
2) Se existem normas morais absolutas que se devem seguir “sem exceções”.
3) Se o adultério como hábito é uma “situação objetiva de incursão habitual em pecado grave”.
4) Se as “circunstâncias ou intenções” podem transformar um ato intrinsecamente mau em um ato bom “do ponto de vista subjetivo”.
5) Se, com base nos ditames de sua “consciência”, um indivíduo pode contrariar “normas morais que proíbem atos intrinsecamente maus”, quando estas são de conhecimento geral das pessoas.

[Tradução minha]

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Entender as coisas direito dá trabalho. E o que é pior: tem que saber inglês para isso. E pior ainda, tem que ler os livros “do contra”, ó horror dos horrores!

Claro, muitos livros “do contra” acabam se revelando os mais sensatos. Mas não sem que gastemos muitos neurônios no processo.

Regrettably, it is often the case that those who are most vocal in their opposition to Austrian economics and most insistent on its incompatibility with Catholicism who turn out to know the least about it. Not long ago, for example, John Sharpe, the head of a publishing house dedicated to books on Catholic social teaching, described “[t]his infatuation with Austrian economics” as “a strange phenomenon among Catholics.” It is practically certain that at the time he made that remark he had read essentially nothing by Mises or Rothbard. Yet he felt qualified to conclude:

“Many of the critics of Distributism repeatedly cite the words of Murray Rothbard, Ludwig von Mises, and others of the Austrian school in defense of their position. . . . The Austrian economists were liberals, plain and simple, following on the heels of the French Physiocrats and the liberal English Political Economists. They opposed socialism not because it violates the natural law as taught by true philosophy and confirmed by Revelation, but because it is less efficiently productive of material wealth than the free market.”
No one who had ever read anything by Mises, or especially by Rothbard, could have made such a remark. We find here no acquaintance with the basic ideas of the Austrian School of economics, let alone the distinction between the Austrian and Chicago schools (the latter of which does indeed place great emphasis on economic “efficiency”). St. Thomas Aquinas went out of his way to understand his opponents’ arguments in order better to refute them. He demonstrated this kind of charity even when dealing with the arguments of outright heretics. Surely we have a right to expect that our fellow Catholics, before launching such attacks, likewise acquaint themselves with the matter at hand.
Mises did, of course, point out the inefficiencies of socialism, though why this should render him suspect is far from clear: even Aristotle implied the inefficiency of socialism when he spoke about the extra care with which we treat property that is our own. Economists’ preoccupation with “economic efficiency” is routinely cited as evidence of their moral perversity—do they not know that there is more to life than mere efficiency? But surely efficiency is a value. It is simply the avoidance of waste. Any conception of man’s stewardship of the things of the earth must inevitably involve a concern for the avoidance of waste. As historian Ralph Raico has noted, it is a good thing that the capitalists of the eighteenth century were every bit as committed to costcutting and efficiency as their modern-day critics claim they were, since in a society as poor as theirs any waste came at the expense of the well-being of the great mass of the population.
Moreover, Mises’ economic argument against socialism went far beyond the mere question of efficiency as that term is popularly understood. His intellectual demolition of socialism constituted a work of such genius that one can scarcely imagine grounds on which an intelligent Catholic could simply dismiss it as a product of “liberalism” unworthy of his attention.

Fonte: Thomas E. Woods, The Church and the Market: A Catholic Defense of the Free Economy.

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