Pornglish

Abro a amostra para Kindle de um livro de C. S. Lewis que saiu por uma editora “Vida Melhor”. As primeiras três frases contêm um “você” para traduzir aquela maneira coloquial como os americanos se referem ao interlocutor, em seus livros, dizendo “you”. Acho deveras louvável a enxurrada de livros do C. S. Lewis e do Chesterton com que as editoras conservadoras estão inundando o mercado brasileiro. Quanto à tradução, porém, considero que 90% desse material ainda não foi vertido ao português. Foi vertido a um outro idioma, que poderíamos chamar de neopataquês, trelelê, “pornglish” ou “bereguê” – para homenagear, neste último caso, o saudoso Ruy Goiaba. Já me disseram “eis aí um nicho de mercado que você (opa!) pode explorar”. Só que esse nicho é composto por não mais que umas duas dúzias de pessoas: as que sabem falar português hoje em dia no Brasil


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Cemitério maldito

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Assisti a muitos filmes quando era criança e, depois, adolescente – principalmente depois da popularização do videocassete (sim, eu sou velho desse tanto). O primeiro videocassete que meu pai comprou ficava no meu quarto. Eu passava as tardes e as noites vendo filmes e comendo biscoitos ou lanchando. Meus pais, porém, nunca viam filmes comigo e com meus irmãos. Não víamos filmes em família. Até que um dia tentamos fomentar esse hábito chamando meus pais para assistir a este filme. Não lembro quem chamou, se eu ou meu irmão do meio. Só me lembro vagamente de que houve uma espécie de empenho moderado de nossa parte para que meus pais assistissem a este filme conosco, pois tínhamos gostado muito dele e meu pai, se não me falha a memória, tinha-se interessado também, ao ver algumas cenas, de passagem, em alguma das inúmeras vezes em que o víramos.

Pois bem, acontece que se tratou de uma GIGANTESCA ingenuidade de nossa parte. Jovens inocentes que éramos, nem nos passava pela cabeça (apesar de sabermos do fato) que o nosso irmãozinho, o primeiro filho de nossos pais, morrera atropelado por um caminhão, na frente da casa deles. Por um descuido da babá, ele atravessara a rua correndo ao ver minha mãe do lado de lá! Pra piorar, a idade dele quando morreu era exatamente a do menino do filme. Meu pai ficou revoltado ao ver a cena e se retirou do quarto. Minha mãe, de quem hoje admiro a calma que teve na ocasião, nos explicou que nosso irmãozinho tinha morrido daquela maneira e nos disse que era muito triste e traumático para eles assistir àquele filme conosco.

Minha memória pode me estar passando a perna em alguns detalhes, mas o principal foi isso. E hoje, depois de ter-me tornado pai, compreendo a enorme, incomensurável tristeza que meus pais devem ter sentido quando meu irmãozinho morreu daquela maneira tão trágica e os respeito ainda mais por terem superado esse trauma em sua vida – não, obviamente, sem percalços – e ainda terem criado mais três filhos. Tudo o que eu fiz e farei nesta porca vida foi e será completamente insuficiente para agradecer-lhes o que fizeram por mim. Tudo o que qualquer filho faça na vida é nada diante da dedicação de um pai e de uma mãe amorosos. Mas o mais incrível (agora, que sou pai, percebo isso) é que um pai não espera nenhum ato de agradecimento do filho. O simples fato de vê-lo viver já o satisfaz. Acho que a vida é um milagre tão grande que a gratidão que um pai sente por ter botado um filho no mundo já lhe traz toda a felicidade que um ser humano é capaz de sentir e compreender. O que quer que venha a mais está muito, muito além do que merecemos. Curioso fato este, de os seres humanos não se merecerem uns aos outros…

Estadão mente sobre o ESP

Percebam a desonestidade do Estadão. A manchete diz: “Escola Sem Partido completa 1 ano em cidade do interior paulista e não tem efeito prático”.

O subtítulo já revela, parcialmente, a desonestidade da manchete: “Em Pedreira, primeira cidade a adotar legislação, professor ‘não pode incitar alunos a participar de manifestações’. Prefeito fala em ‘caráter preventivo’ e sindicato vê medida como inócua”

O primeiro parágrafo faz o resto do serviço: “O programa Escola Sem Partido completa um ano este mês em Pedreira, no interior paulista, sem registrar nenhum caso em que a lei tivesse de ser invocada.”

Ou seja, o “não tem efeito prático”, longe de ser um fato, é a OPINIÃO do… sindicato! O FATO é que não houve caso em que a lei (na verdade não é uma lei, mas deixemos este outro erro pra lá) tivesse de ser invocada, logo não parece ter havido abuso por parte dos professores.

A rigor, não há notícia nessa matéria. Até porque o Escola sem Partido só exige que se coloque um cartaz com as “regras” em sala de aula. Logo, não há como auferir efeitos práticos, senão comparando-se o número de casos de abuso antes e depois de pregado o cartaz. Como, antes, não havia registro desses casos, não há como auferir nada.

Não pode denunciar?

Parece que virou modinha posicionar-se contra a iniciativa da Ana Campagnolo, deputada estadual eleita em SC, de pedir aos alunos que denunciem os professores esquerdistas. Afirma-se que isso criará um cenário subjetivista e que, daqui a pouco, alunos ignorantes denunciarão qualquer coisa. A acusação até faz sentido. Ninguém quer denuncismo e o mais importante é melhorar a qualidade do ensino e a formação dos professores. Por outro lado, as coisas que muitos professores andam dizendo em sala de aula são tão escabrosas que eu vejo a iniciativa das denúncias como uma espécie de operação de emergência a ser posta em prática ENQUANTO não se consegue resolver os problemas mais, digamos, estruturais e definitivos. A preocupação de muitos “analistas”, sobretudo na Internet, com a liberdade dos professores me parece muito mais fruto da atual obsessão do brasileiro com uma idéia meio metafísica de “democracia” do que de qualquer outra coisa – o que os leva, aliás, a atribuir à iniciativa da deputada muito mais força e potencial do que possui.

Pequena radiografia de uma fake news “oficial”

Observação inicial: Chamo de fake news “oficial” aquela publicada pela velha mídia.

Vejamos, em três etapas, como um jornalista mente através do acúmulo de meias-verdades.

Passo 1: Valendo-se da ignorância da crase, típica no Brasil de hoje, o jornalista faz parecer, na chamada, que se trata da esposa (“mulher”) do acusado.

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Passo 2: No título da matéria, já não se fala de “mulher”. Assim, já se vai dissipando a palavra da memória do leitor.

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Passo 3: Apresenta-se, no texto, o “fato” verdadeiro, a saber, que existe uma denúncia feita por uma JORNALISTA, ou seja, uma pessoa que, por sua profissão, já se encaixa numa posição de suspeição com relação ao acusado, já que todos sabem que os jornalistas em geral não gostam dele. Além disso, trata-se de uma acusação sem provas que não o testemunho da própria acusadora, com quem o deputado “teria tido um relacionamento”.

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Compreendem a sutileza da coisa? Você abre o jornal e a notícia fica sempre a três passos de distância. Dois deles servem de isca anunciando meias-verdades e só no último é que vem a verdade, quando vem.

A cafajestização por meio de palavrões

Confesso que até eu me surpreendi com a criatividade intelectual do Caetano. O discurso que ele gaguejou depois do Mano Brown é de uma lógica sui generis. Segundo o cantor, “filósofos que falam palavrão” hipnotizaram e imbecilizaram durante décadas a população brasileira, criando assim uma cultura do cafajeste (foi a “cafajestização” da sociedade). Os brasileiros, então, passaram a crer-se cafajestes e, conseqüentemente, a acreditar que precisam ser representados por um cafajeste na presidência. [Pausa para gargalhadas.]
O raciocínio possui, confesso, uma certa relação com o que aconteceu de fato – uma relação analógica, eu diria; meio que por oposição, meio que por simbologia, meio que por psicologia. Caetano tem, ao menos, o mérito de ter tentado entender “com sua própria cabeça” o que aconteceu, ao contrário dos petistas. Pena que sua cabeça é ruinzinha que só!

Do isentonismo

O isentonismo funciona assim: a pessoa fala um monte de merda forçando a barra para ser lindinha, e então começa a perder seguidores e fica só com seguidores merdinhas. Esses seguidores merdinhas se dividem em isentões como ela e em extremistas da causa oposta à qual ela tende (todo isentão tende a uma causa, geralmente a da minoria quantitativa; por exemplo, o isentão eleitoral de agora tende ao anti-bolsonarismo). Os extremistas da causa oposta (sempre mais insistentes com os isentões, pois querem convertê-los), então, falam merdas fenomenais, até de cunho homicida, e com isso alimentam o isentonismo da pessoa em questão. Ao fim e ao cabo, de tanto alimentar-se de isentonismo, a pessoa acaba virando opositora da causa em relação à qual se pretendia isenta.

Dou o exemplo de uma ex-amiga: era isentona em relação ao Olavo. Foi perdendo seguidores normais e ficando somente com os anti-olavetes e os que nem sabem quem é o Olavo. Os seguidores anti-olavetes lhe foram alimentando de catolicismo farisaico e de anti-olavismo; e os outros, de likes. Ela então começou a falar merda sobre o Olavo, despertando assim uma certa indignação nos poucos seguidores favoráveis ao Olavo que ainda possuía. Estes se manifestaram provocando-lhe mais um pouco o orgulho farisaico e, assim, radicalizando um pouco mais a fala dela. Depois se mandaram. Chegaram então as eleições e, logicamente, entre seus seguidores quase só havia anti-bolsonaristas e isentões. O mesmo processo ocorreu – agora no campo do bolsonarismo/anti-bolsonarismo – e, ao final, ela terminou virando anti-bolsonarista. E seu anti-bolsonarismo é alimentado por prints de bolsonaristas idiotas (do tipo que fala que quer matar petistas), já que os bolsonaristas normais já foram todos embora de seu perfil.

E assim caminha a humanidade isentona: rumo ao extremismo anti-direita – o qual, todos bem sabemos, tende infinitamente ao esquerdismo puro e simples, ainda que sem nunca “tocá-lo”, para usar uma metáfora matemática.